quinta-feira, 30 de abril de 2009

Haidamaky --- Os Terceiros Galos

Taras H. Shevchenko

Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)

De novo, a Ucrânia foi escravizada
--- malditos lyakhy. Mais uma vez.
Mais uma vez entristeceram-se: a
Ucrânia toda, com ela o Chyhyryn.

Mais uma vez passou-se Makovia
--- o grande dia festivo da Ucrânia.

Também, passou toda a nobreza ---
os vendilhões profanos e desumanos.
Se embeberam de sangue humano;
mas, em taças de vinho se afogaram.

Baniam os cismáticos. Crucificavam.
Odiavam!.. Nada mais podiam tomar.
-- Os haidamaky, esperavam calmos,
até que os ladrões fossem sonhar...

Deitaram-se os inimigos. Não sabiam,
que outros dias não mais veriam. Não!

Adormeceram para sempre os lyakhy.
Contavam dinheiro ainda, os traidores.
Ninguém do povo os conhecia. Agora,
o seu ouro as suas cabeças encobria.

Todos dormiram para sempre...
Pois, que tenham um sono eterno leve!

Neste instante, a lua navegava tranquilo.
Os ceus, as estrelas, a terra, os mares,
refletiam a luz do luar. As gentes agiam
de tal modo, que Deus não podia ignorar.

A face prateada da lua, espargia sorrisos
sobre as estepes da nossa terra Ucrânia;
iluminando ... e, talvez tenha visto a órfã:
a pobre Oksana --- lá de Olshana. Será?

Pode estar ela submissa, gemente de dor.
Yarema não sabe? Não sabe, nem ouve?..
Saberemos depois. Agora, ouçamos esta.
Tocarei, cantando outra
--- não é o cantar de mulheres,
é a dança dos cossacos que vai ecoar.

Eu canto a desgraça do país cossaco!..
Ouçam e aprendam --- cantem aos filhos;
que os filhos escutem, cantem aos netos
de como os cossacos baniram os lyakhy,
porque não souberam honrados governar.

Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Muitos anos se passaram,
té que os rios todos secaram.
As campinas ainda verdejam;
sobre elas, espalhados,
os grandes túmulos pretejam
Pouco importa que são altos;
ninguém os conhece!..
--- São kurhany!
Azuis como nuvens densas
--- caidas restaram,
após as tempestades
que um dia passaram.
Ninguém chora
por seus ocupantes
--- ninguém se lembra deles.
Somente uma brisa leve,
sobre a lájea se estende;
somente a orvalhada
a sua lágrima enchuga
no floral da tumba.
Ao calor do sol,
tudo se transforma
--- nem orvalho, nem a brisa
deixam restos. Viram sombra.

E os netos?
Não são coisas deles
--- são escravos de senhores.
Embora que muitos,
mas ninguém conhece
quem era o Honta e
onde lhe fazer uma prece.
Em que tumba
Zaliznyak foi sepultado?

É um triste pesadelo!
Verdugo tomou a conta
de um povo inteiro ---
marasmo invadiu as mentes:
ninguém mais se lembra
dos bravos cossacos.

Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Dias e noites eram de gritos e
de troadas de canhões --
a terra toda estremecia...
Tristeza vem à memória,
enquanto o coração sorri.
Iluminada lua minha! Tu,
que lá no alto estás pindurada,
esconda-te por trás dos montes
--- não queremos mais o teu brilho...
Veja o sangue derramado nas águas
dos rios Ros e Alta e, do rio Sena.
Um vasto mar de sangue... Por que?

E agora! Faremos o que!?
--- Vamos esconder-nos
por trás dos montes,
para não termos de chorar,
quando a velhice nos abraçar!

Nos confins da abóbada celeste
brilha a lua solitária; junto às margens
do Dnieper largo, vagueia o cossaco --
poderá estar saindo de uma noitada.
Os seus passos lentos dizem
que está muito cansado... --- Poderia
estar levando o fardo de ser despresado.
Só no mundo e é pobre.
Como, alguém assim, seria amado?
Disse ela que o amava
--- pouco importava que andasse
todo remendado. O amor era velado.
Esperasse mais um pouco,
que a sorte haverá de ter chegado...
Porém, o coração chora ---
pressentindo algo doloroso;
poderia ser o que?
Sem resposta, por amor implora!

Passou a desgraça e todos silenciaram.
Parece que partiram para outras plagas.
--- Nem sombra de si deixaram.
Os cães não mais latem,
os galos não cantam;
somente, por trás dos montes,
de alguns lobos, os uivos se ouvem.
Pouco importam dos lobos os uivos.
São os passos vagarosos do nosso Yarema!
--- Seu destino não é a Oksana em Olshava.
Não é este o dilema!
O Yarema se dirige até a Cherkassy ---
quer falar com os infieis lyakhy.
Os terceiros galos agora cantaram...
As margnes do Dnieper largo,
aos olhos do Yarema, se magnificaram.

"Ai! Dnipro, meu Dnipro largo e poderoso!
Muito sangue cossaco tu já levaste para o mar
--- levarás mais ainda, fiel amigo!
Avermelhaste as azuis águas;
porém, não te saciaste...
Mas esta noite serás embriagado.
Esta noite: um infernal dia santo,
por toda a Ucrânia, ressoará.
Muito, muito, mas muito sangue
--- um sangue da nobreza lyakhy
pelas estepes verdes correrrá.
Ressussitarão os kozaky; também,
os hetmany, em seus dourados zhupany.
"Não haverá mais taverneiro,
nem haverá nenhum lyakhy;
--- nas campinas das estepes
apenas o brilho da bulava se verá!"

Oh! meu Deus... Assim será?

Andava, pensando assim, o mal vestido Yarema,
segurando um tarani bento em suas mãos.
O Dnipro fingiu estar ouvindo o seu pensamento e
levantou vagas enormes de ondas azuis,
tangendo, com chibatas de juncos, as margens
cobertas de salgueiros... E, não mais parou!

Os trovões se enfureceram,
relâmpagos se incendiaram.
De ponta a ponta, as nuvnes se rasgaram.
Não notaram que o Yarema
de tão pensativo, deles nem se apercebia
--- só pensava na sua Oksana. Ela sofria?

"Está longe a minha querida.
Não a vejo... longe dela.
--- Ela de mim lembra?..
Talvez, nunca a veja!"

Lá ao longe... Lá daquele vale,
ouve-se o canto dos galos --- ku-ku-ri-ku!

"E Cherkassy!.. Deus querido!
Que ainda eu chegue a tempo!"

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Cherkassy --- Cidade às margem do Dnieper (nome antigo, hoje: Dnipro)
zhupany --- Vestimenta tipo casaco longo
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04/30/2009

Haidamaky --- Festividades em Chyhyryn

Taras H. Shevchenko

Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)

Senhores, nossos hetmany! Que tal se vos levantasseis.
Que tal se vos levantasseis para verdes aquela Chyhyryn
que vós construistes --- na qual festejos celebrastes!
Terieis chorado tanto... Não terieis reconhecido,
nem um puco, das glórias dos kozaky, nas ruinas
que apenas restaram dela.

Aqueles espaços, parecia um mar gigante vermelho,
ocupados pelos exércitos, diante de seus bunchuky
--- em tempos idos. Parecia tudo em brasas queimar.
E, quando o todo poderoso, em seu cavalo murzelo,
a sua bulava menear --- o mar se põe a flamejar...

Do mar as águas fervem e se esparramam
pelas estepes e pelas encostas ---
a desgraça não sobrevive diante delas.

E os kozaky...
O que dizer-se há de? Tudo passado;
e, tudo aquilo o que passou,
não se recorda, irmãos-senhores,
para que não se saiba nada dele...

Mas, que proveito haveria, se o recordardes?..
Tereis lembranças tristes e chorareis. Tão só!
Porém, valeria a pena darmos um olhada na Chyhyryn
--- antiga cidade sede dos cossacos.

Lá dos bosques, por entre as brumas,
a lua prateada se apresenta ---
vez por outra, avermelhada se mostra,
de face redonda parece em brasa; não
apenas brilha --- como que sabendo
que a sua luz, ao mundo todo,
pouco ou nada representa:

Que as labaredas dos incêndios
iluminarão e aquecerão
as terras vastas da Ucrânia.

Já entardecia... Em Chyhyryn
silenciava tudo --- parecia um ataúde.

Melancolia e tristeza (Assim sentia-se,
por toda a Ucrânia, na noite de Makoviya,
quando as facs se afiavam e se benziam).
Não se ouvia o povo: a praça toda vazia,
apenas morcegos se divertiam; e,
nos pastos das estepes, corujas chirriavam.

Mas onde está o povo? Junto ao Tyasmyn
--- numa densa floresta.
Reunidos: velhos, crianças, ricos e pobres;
aguardam o dia de grandes festejos.

Numa densa floresta, no verdejante carvalhal,
com os seus cavalos amarrados pastando,
os kozaky selam os seus elegantes murzelos.
E... já estão todos de prontidão.

Para onde irão eles? Consigo a quem levarão?

Vejam só, quem está com eles!
Estenderam-se, pelas brumas do vale,
como se mortos estivessem. Nada se ouve...
Eles são os haidamaky.
Ao lamento da Ucrânia, os corvos se reuniram;
levarão para os lyakhy o castigo ---
uma vingança pelo sangue que derramaram e,
pelos incêndios que promoveram.

Receberão em troca --- dos haidamaky,
o nobres lyakhy, chamas ardentes do inferno.
--- Jamais se brinca com os kozaky!

Na encosta, de uma colina de carvalhos,
estacionavam carroças cheias de tarani.
Disseram:
"... era um presente da bondosa senhora "

Sabia ela o que presenteava ---
nada pois a reclamar.
Que ela continue a governar;
não se injurie, antes de ouvir!
Entre as carroças, não espaço onde parar:
parece até de pásaros um bando, vindos
lá de Smilyanshchyna e lá do Chyhyryn.
Eram cossacos de toda ordem
--- simples soldados, starshina;
tratar de assunto singular se reuniram...

Todos de túnicas pretas, como se fossem um
--- eram os maiorais dos senhores kozaky.
Confabulavam, andando de um lado ao outro...
Vez outra, apontavam para o Chyhyryn.

Depois, um a um:

Starshyna Um:
O Velho Cabeçudo algo está tramando.

Starshyna Dois:
Cabeça inteligente, fica no seu vilarejo, parecendo nada saber; mas,
quando percebes --- Holovatyi está em todo lugar. "Quando sozinho
não consigo dominar, --- diz, --- ao filho repasso".

Starshyna Três:
O filho também é um mestre! Ontem eu encontrei-me com Zaliznyak.
Contou-me ele a seu respeito, que é dele só! "Diz que um dia será um
Koshovyi; talvez, até possa ser um Hetman, caso ..."

Starshyna Dois:
E para que Gonta? e Zaliznyak? Para o Gonta, pessoalmente..." ela escreveu:
"Quando, --- dizendo..."

Starshyna Um:
Silêncio, por favor; parece que estão telefonando!

Starshyna Dois:
Não é não; é o povo que está alvoroçando.

Starshyna Um:
Estão se alvoroçando, até que os lyakhy ouçam.
Oh! Cabeças velhas e inteligentes: quanta imaginação; maquinam tanto até que conseguem
fazer da relha uma sovela. Quando se pode ter um saco, não se pede a sacola. Comprastes armorácia, então deveis come-lá; que chorem os nossos olhos, embora tenham de sair para fora das suas órbitas: viram o que compraram; dinheiro não se perde à toa!
Geralmente, temos pensado muito --- mas, não em voz alta, nem em voz baixa; porém, os lyakhy acabam por desconfiar de nós --- eis no que consiste o segredo, em ficarmos a ver navios! Que Conselho é aquele? Por que eles não se comunicam conosco? Como seria possível fazer o povo se calar, para que não se alvoroçasse? Não são dez pesoas apenas; mas, graças a Deus, toda a Smilyanshchyna, quando não toda a Ucrânia. Ouçam! Estão cantando. Deu para ouvir?

Starshyna Três:
É verdade. Alguém está cantando. Vou silenciá-los.

Starshyna Um:
Não, não os silencie. Apenas, que cantem mais baixo.

Starshyna Dois:
Ali, parece que é o Volokh! Não aguentou o velho bobalhão; precisou cantar e pronto!

Starshyna Três:
Mas, o seu canto é inteligente! E sempre uma canção diferente. Acheguemo-nos sorrateiramente, para ouvirmos melhor --- enquanto aguardamos o telefone tocar.

Starshyna Um e Dois:
E, porque não? Vamos!

Starshyna Três:
Muito bem, vamos.

Os dois se aproximaram --- esconderam-se por trás de um sobro. Sob a castanheira
sentado, o cego kobzar cantava; à sua volta, os kozaky zaporozhtsi e os haidamaky.
O kobzar, em tom de melancolia e em surdina cantarolava.

Kobzar:

"Ai! valáquios, valáquios,
de vós poucos restaram;
E vós, moldávios,
agora não sois mais senhores.
Vossos senhorios
aos tártaros se venderam
--- aos sultãos dos turcos.
Estais agrilhoados
--- oprimidos e subjugados!

Não vos entristeçais;
façais uma reza boa,
irmanai-vos conosco
--- nós somos kozaky.
Lembremo-nos juntos de Bohdan,
o velho hetman nosso.
Então, sereis livres
--- senhores de si próprios.

Assim, como nós,
com as vossas tarani bentas,
tendo à frente o pai Maksym
--- com a Sich nossa,
juntos faremos bailar
dos lyakhy a nobreza.

O bailar será tamanho
que o inferno rir-se-á de si.
A terra toda tremerá... E...
o céu, de ponta a ponta, se inflamará...
Que grande baile, este será!"

O Cossaco
Dançaremos! Canta verdade o velho; mas, será?
E se ele não fosse o volokh, que kobzar seria dele!

Kobzar
Realmente, não sou volokh. Há muito tempo estive em Voloshchyna; daí o povo
chamar-me de volokh --- nem sei porque.

O Cossaco
Não importa. Cante mais uma. Talvez alguma sobre o pai Maksym!

O Haidamaky
Não muito alto, para a starshyna não ouça.

O Cossaco
Mas o que tem com isso a starshyna? Se ouvir, escutará; caso tenha com que ouvir.
Vamos lá. Nós temos um só starshyna --- o pai Maksym. Quando este ouvir, então
até nos pagará. Cante nos, o velho de Deus; não ligue para o que ele diz.

O Haidamaky
Mas é assim mesmo, o homem; disto eu sei também. Porém, o negócio é: não assim
os senhores, como o são os subordinados, ou --- enquanto o sol não aparece, o orvalho
carcome os olhos.

O Cossaco
Mentira! Cante, o velho de Deus; qualquer que sabes. Senão, adormeceremos.

Todos juntos
Verdade, adormeceremois. Cante-nos qualquer uma.

Kobzar (cantando)

"Voa águia cinzada
sob a abóbada celeste;
Pelos bosques das estepes
passeia o pai Maksym.
Voa águia cinzada,
atrás dela vão os filhotes;
Pelas campinas passeia o Maksym,
atrás dele vão os rapazes.
São seus filhos, crianças suas, ---
pensa assim em se indagando:
Melhor será beber, ou será matando?
Talvez, dançar --- então começam a
bailar, até que a terra toda trema e,
o riso se estabeleça, sem descanso.

Hidromel, vodka; não de cálice ---
mas, de concha-púcaro se bebe...
O inimigo, de olhos fechados,
do caminho se espaneja.

Assim é o otomano
--- nossa águia cinzada!
É guerreiro, e se diverte,
mas com toda a força ---
A sua morada será sempre
à sombra de um sobro.
Não tem ele nem choupana,
nem jardim, nem lago pequeno...
Estepes abertas e mares azuis
são o seu caminho! Todo ele ---
é o seu ouro e a sua glória.
Estremeçam pois, hostis lyakhy,
cães ferozes e cruentos...
--- Zaliznyak vai ao encontro
e o seguem os haidamaky".

O Cossaco
Isto é o suficiente! Basta: nada há a completar, verdade.
Muito bem cantado! O que se quer, isto pode-se cantar. Obriagdo, obrigado ---

Haidamaky
Temo, parece-me algo não estar claro. O canto dele foi sobre os haidamaky?

O Cossaco
Como tu és besta, na verdade! Não ouviste que o canto dele foi sobre os lyakhy?..
P'ra que estes cães raivosos --- os pagãos, se arrependessem; que o Zaliznyak está
chegando, e que vem seguido pelos haidamaky. Que os lyakhy serão exterminados...

Haidamaky
Serão enforcados e torturados! Isto é bom..., por Deus, muito bom! É assim mesmo!
Pagaria até uma moeda, se não a tivesse gasto em bebida ontem! Pena! Pois então que a velha tricoteie, haverá mais carne --- Debita na conta, por gentileza, amanhã darei o troco.
Cante mais uma sobre os haidamaky.

Kobzar
Não me achego ao dinheiro. Quero apenas que me ouçam, enquanto não me tornei rouco.
Se enrouqueço --- um cálice de água benta, um segundo e, depois, aos meus cantos me arremeto. Ouçam, do começo:

"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas;
seguros, pastavam os cavalos,
todos selados e de prontidão.
Também dormiam as senhoras
com os senhores lyakhy
em seus aposentos
ao lado de bebuns e taverneiros.
Encheram a cara de vodka e,
se ..."

Todos
Pessoal, silêncio! Parce que estão chamando. Ouçam! Mais uma vez... ó!

"Tilintou o telefone, tilintou!"
--- ecoou o som pela floresta.
"Vamos, gente. Rezem todos
--- eu termino o meu canto
já andando, pelo caminho".

Largaram-se à estrada,
só se ouvia o gemer dos sobros.
À mão, o mais simples ---
carregar tudo nas costas.
Apetrechos dos haidamaky
transportar pelas carroças.

Segue atrás, cantando,
o Volokh de novo:

"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas..."
Claudicante, cambaleia,
já sem sentido murmura.

"Cante outra, santo velho!" ---
As carroças já nas costas,
quebradas não andam.

"Está bem, meninos! Esta agora!
Assim, assim! Muito bem, meninos!
Vamos, firmes!.. Corvos altaneiros!
Todos dançando!"

O chão geme --- a terra se contorce.
Os haidamaky, com as carroças,
dançam tanto que a poeira estremece
e o Kobzar toca.

E, ainda cantando:

"Oi! Hop taky tak!
--- o cossaco chama a Handzya:
"Venha Handzya, vou beijar-te.
Vamos Handzya até o padre:
lá, vamos a Deus rezar.
Não há trigo nem um pouco,
podes cozinhar lentilhas".
Casou-se o cossaco, ficou triste ---
nada tem na vida.
Os filhos dormem na sarapueira
--- o cossaco sempre canta:
"Na choupana ty-ny-ny,
na despensa ty-ny-ny;
linda esposa minha ---
se tiver, asse-me uma tenca,
ty-ny-ny, ty-ny-ny!"

"Muito bem! Muito bem!
Mais uma! Mais uma!"
Gritaram os haidamaky.

"Ui! Ai! Eis a graça!
Fermentaram a bebida os lyakhy;
mas, nós vamos embebedar-nos
--- serviremos aos senhores nobres,
desfrutando das suas senhoras...

Oi! Hop taky tak!
O cossaco chama:

"Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!
não tenhas vergonha --- dê-me a tua mão.
Passearemos um pouco juntinhos.
Deixemos que os outros tenham sonhos ingratos
--- juntos cantemos uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!"

"Mais uma vez, mais uma!"

"Ora assim, ora assado;
seja lá como for.
Mas que seja um cossaco,
e que seja o moço jovial ---
que ao menos dentro de casa
tenha-me para o seu festim.
De um velhote eu tenho medo
--- um folgazão, comigo não...
Ah! Se um jovem houvesse,
e que me amasse. Assim..."

"Eh-eh!, seus doidos. Não enraiveçam!
Porque exaltar-se assim! E tu,
velho cão bravo, rezas porque
fizeste asneira com as pagãs!
Para os diabos! Fechem a boca!"
Gritou assim o otomano.

Calaram-se todos.
Até a santa igreja descobriram
--- o diácono cantava lá...
Os popy andavam com os turíbulos.
Silentes, os paroquianos peroração ouviam;
enquanto os popy, por entre as carroças,
aspergiam água benta, com os hissopes.
Seguiam-se-lhes os estandartes
e cantares sacros se ouviam.
Parecia até que era
o Grande Dia da Páscoa Santa

"Rezem, irmãos amados. Rezem! ---
Assim teve o começo a fala dos popy. ---
Ao redor da santa cidade Chyhyryn
uma muralha d'outro mundo se erguerá
--- os umbrais das portas nossas
aqui ninguém --- jamais profanará.
E vós deveis cuidar da nossa Ucrânia:
que ela --- vossa mãe, jamais padeça,
nem desfaleça em mãos estranhas.
Já desde o Konashevych até agora
as labaredas não se apagaram sobre nós
--- morre o povo simples; e os que restam,
descalsos perambulam e lotam as prisões.
Nascem filhos não batizados ---
são filhos dos nossos cossacos.
O que dizer sobre as mulheres!..
As flores vivas dos nossos jardins
--- colhidas pelos lyakhy, amorfanhadas
como o foram as suas mães...
Todos seus sonhos sendo destruidos.
Os seus irmãos também padecem ---
escravos do inimigo todos se tornaram;
não mais se reconhecem --- vergonha,
e mais vergonha é só o que conhecem!

Rezem, meus filhos! Rezem!
Juizo final os lyakhy darão p'ra Ucrânia ---
até que os montes farruscos estremeçam.
Recordem os hetmanes justos:
Onde estão os túmulos deles?
Onde estão os restos do glorioso Bohdan?
Ostrianytsia em que tumba se encontra?
Onde sepulto está o Nalyvaiko? Não há!
Suas cinzas somente, os ventos carregam
--- todos, vivos ou mortos, foram queimados!

Aquele Bohun? Aquele inverno?
Ingul congela como todos os anos ---
Bohun não poderá levantar-se para atulhar-se
de corpos de seus inimigos --- os lyakhy.
Os lyakhy se divertem, enquanto Bohdan dorme!
Tudo se colore de vermelho --- Zhovti Vody e Ros verde.
Korsun velho entristecido:
não tem com quem dividir a sua sorte.
Também, a Yalta chora:
"Triste a vida!
Eu me definho, empalideço...
Por onde andará o Tarás?
Não há nem sinal dele...
Os filhos abandonaram o pai!"

Irmãos, não chorem por nós.
As almas dos justos são fortes
--- são assistidas por arqui-estratega São Miguel.
Ainda não chegou a hora dos castigos
--- dos montes farruscos. Ainda é hora de rezar!"

Todos rezavam.
Rezavam os cossacos de toda a sua alma.
Como crianças se fizeram --- da tristeza se abstiveram.
Pensaram algo... algo novo, o que teria de acontecer
--- as tumbas suas de lenços brancos se cobririam!..
Glória total. Do povo a vontade se fez resplandecer.
Lenços brancos tremulando
--- serão um dia arriados?..

O diácono cantando:

"Que morra o inimigo!
Em mãos os tarani! Benzidos já?"

Os sinos repicaram...
Em uníssono, todos gritaram:
"Benzidos já ficaram!"

O coração até gela de pavor!
Santificados estão os tarani!
A nobreza padece destruida!
Chegou o dia da desforra! ---
As armas brilharam,
como jamais antes,
por toda a Ucrânia.

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Chyhyryn --- Cidade junto ao rio Tyasmin (afluente à direita do Dnipro) nas terra da
Kyivshchyna. Bohdan Khmelnytsky tinha transformado Chyhyryn em
residência dos hetmany
bunchuk --- Bastão de autoridade militar. Deriva do nome truco.
bulava --- Bastão de comando, clava
Makoviya (dia de Makoviya) --- Nome popular do dia das festividades da Igreja (1 de
agosto, no antigo calendário). Neste dia, eram apresentadas e benzidas
as armas (facas) usadas nos combates contra a nobreza polonesa.Tyasmyn
Tyasmyn --- Rio afluente do Dnirpo da margem direita
tarani --- Arma de ataque; feita de madeira resistente com ponta de aço. Era usada para
a demolição de paredes das fortes militares. Os haidamaky acreditavam que
eram um presente da bondosa senhora (Yekateryna II). Junto com estas armas
havia uma "Hramota" (autorização legal --- tipo decreto) para fossem usadas
para a aniquilação da nobreza polaca.
bondosa senhora --- Yekateryna II, Imperatriz da Rússia
Smilyanshchyna --- (Smila) Cidade junto ao rio Tyasmin, nas vizinhanças de Chyhyryn
starshina --- Oficialato militar
Velho Cabeçudo --- No original "Staryi Holovatyi". Era o último juiiz dos exércitos de
Zaporizhzhya. O nome verdadeiro era Pavel Holovatyi.
Gonta --- Ivan Gonta foi sotnik (comandante de sótnya). Foi comandante dos cossacos,
formados de camponeses servos, a serviço dos dos magnatas poloneses da
família dos Pototsky. Foi executado pela shlyakhta polonesa.
sotnya --- Grupamento militar de 100 homens
Volokh --- Era o cego kobzar que acomapnhava os haidamaky. Nome bastante difundido
na Ucrânia no séc. XVII, eram os remanescentes valáquios (descendentes dos
godos-dácios e ancestrais dos atuais moldávios)
Maksym --- (Zaliznyak Maksym) Lider dos cossacos da Ucrânia da margem direita, foi
aprisionado pelo exército tsraista e exilado para a Sibéria.
Voloshchyna --- Pequeno ducado da Moldávia (terras de Volokh)
tenca --- (ou tinca) Peixe comum em vários paises europeus
popy --- padres (pop = padre, sing.)
Konashevych --- Petr Konashevych Sahaidachny foi hetman ucraniano de 1614 a 1624
Ostrianytsia --- Stepan Ostrianytsia foi hetman que comandou a revolta dos kozaky
de 1638
Bohun --- Ivan Bohun, libertado ucraniano do jugo polones
Ingul --- Rio ucraniano na região de Kirovohrad
Zhovti Vody --- Cidade ucraniana, junto ao rio Amarelo (rika Zhovta)
Ros --- Rio afluente da margem direita do Dnipro
Korsun --- Cidade ucraniana, fundada em 1032 por Yaroslav, o Sábio
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04/30/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Haidamaky -- Tytar

Taras H. Shevchenko

Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)

"Bosque, souto
--- total calmaria;
navega silente a lua,
estão reluzindo as estrelas.
Venha, querida, ---
estou esperando:
ao menos, por uma hora
--- ó, minha namorada!

Apareça, pombinha minha!
Arrulharemos um pouco,
suspiros viveremos...
Esta noite,
para terras distantes,
estarei de partida.
Apareça!.. Ó, minha colibri
--- és tu o meu coração...
Apareça, enquanto
ainda estão pertinhos
os nossos caminhos.

Ciciaremos um pouco...

Ah! Que tristeza
é tudo em mim!..

Yarema assim cantava,
vagando junto ao bosque
--- enquanto esperava a sua Oksana;
mas, ela não chegava...

No ceu, as estrelas reluziam, e
a clara lua prateava.
Salgueiros ouviam os rouxinois,
enquanto apreciavam reflexos seus
nos espelhos do fundo dos poços...

Cada vez mais, sobre os viburnos,
os rouxinois cantavam, pareciam saber
que o cossaco a sua amada esperava.

Yarema, já cansado --- a muito custo,
pelo vale, junto à floresta, perambula:
ao redor, nada escuta e nada vê.
Pensa, apenas:

"Por que serve-me a formosura,
se a sorte não tenho,
nem a felicidade se compraz comigo!
Perco à toa os meus anos jovens.
Sozinho no mundo, sem parentes;
nem tenho um destino --- sou apenas
um talo de erva sequiosa.

Sou um arbusto sem folhas,
que brotou em terra estranha.

Soprarão os ventos, tombarão o talo seco
--- e ninguém de mim se lembrará.
A razão? Ninguém a sabe!.. Talvez,
porque sou um órfão. E, outra não há.

Na verdade, um amor eu tinha:
ela dizia que era minha. Mas verdade,
na verdade foi mentira.
--- Ela não me amava."

E as lágrimas rolaram.
Coitado, chorou!
Secou, com a manga, o rosto:

"Que Deus te proteja. Agora, já vou!
No caminho distante, buscarei a sorte
--- talvez ela esteja depois do Dnipro...

Reclinarei a cabeça, pensando em ti!
E tu, porventura, terás chorado por mim?

Nem verás como um corvo
terá bicado os meus olhos
--- olhos castanhos, acariciados por ti.
Os olhos do cossaco, que um dia beijaste ---
que eram só teus; agora, só meus. Por que?

Pois então me esqueça.
Não mais lembres de mim
--- nem do teu juramento,
que um dia fizeste.
Dê a outro o teu coração.
Sou um simples mortal;
e tu, uma tetarivna.
Se um dia ouvires,
que em campos estranhos repousei
--- faça uma oração breve. Assim,
um descanso tranquilo terei!"

No bordão apoiou a cabeça e,
de novo, chorou. Chorou muito...
Até que um barulho se ouviu: algo crepitou!
Junto ao bosque,
qual um coelho acautelada,
aproxima-se a Oksana.

Esqueceu o choro
--- correu até ela;
os dois se abraçaram.

"Coração!" --- desmaiaram.

Muito tempo assim ficaram. Apenas:
"Coração!" --- de novo, calaram.

"Basta, meu pássaro meigo!"
"Mais um pouco,
mais... mais... ó, meu amado!
Beba a alma minha!.. mais... e mais.
Ai!.. Como estou aflita!"
"Pois descanse, minha estrela!
Tu do ceu caiste!"

Estendeu uma coberta.
Sorridente, como estrela,
ela sentou-se calma --- ele, junto dela.

"Fiquemos juntinhos ---
sintamos o mundo, como se fossemos
debruçados numa janela".

"Coração meu, minha estrela,
onde estiveste luzindo?"
"Atrasei-me hoje:
papai adoentou-se;
fiquei ao lado dele..."
"De mim, nem te lembraste?"
"Quão mesquinho és tu;
Deus que te Perdoe!"
As lágrimas brilharam.
"Não chore, querida. Brincadeira".
"Brincadeira!" --- Sorriu.
Encostou no ombro dele e,
quase, adormeceu.

"Sim, Oksana, estou brincando;
e... tu choras de verdade. Mas,
não chores.Veja os meus olhos.

Amanhã estarei longe.

À noitinha, estarei em Chyhyryn
--- tornando-me um dos haidamaky.

Ficarei rico --- terei ouro e prata,
serei respeitado; terei glórias;
terás roupas e terás sapatos...

Serás uma bela e vaidosa pavoa,
p'ra que eu possa admirar-te
como uma senhora hetman,
até que me leve a morte".

"Pode ser que tu me esqueças!
Sendo rico, viajarás a Kyiv
com os cavalheiros outros;
terás outras amizades ---
esquecerás a tua Oksana!"

"Mais bela que tu, no mundo haveria?"

"Até pode haver... --- Eu não saberia."

"Tu a Deus ofendes, falando assim.
Mais bela que a minha Oksana não há:
nem no ceu, nem cá na terra, e
nem após o azul dos mares, --- nem alhures.
Mais bela que a minha Oksana não há!"

"Estás dizendo o que?
Reflita um pouco: não exageres!"
"Mas é verdade, minha cara!"

A conversa foi-se indo, foi-se indo e,
não terminava... Beijos e abraços e,
mais beijos... --- Juramentos davam.

Depois, Yarema contava
como seria a vida futura.

Unidos p'ra sempre: ouro e sorte teriam.

Mas, o mais importante:
os lyakhy, uma vez por todas,
a Ucrânia livre deixariam.

Que a sorte esteja com eles
e que o Yarema dos combates retorne,
para que, ao lado de Oksana,
os destinos da Ucrânia transforme.

Foi fastioso ouvi-los, meninas!
"Vejam só! Parece verdade ---
Foi entediante!.."

Pois bem,
quando os pais souberem --- desta estória,
que vós agora vós estais lendo,
que pecado não terá sido para a boca cheia!..

Então, depois... que Deus me perdoe,
será muito engraçado! Ainda mais, se vos
contasse que o cossaco de olhos negros,
debaixo da sombra de um salgueiro,
abraçado à querida sua, triste chora.

A Oksana, como pequena pombinha,
arrulha, arrulha... e geme...
--- cobrindo de beijos o seu namorado.

Também chora e, vezes desmaia.

Cabecinha encosta:
"Meu amado, minha vida!
Ó, meu falcãozinho!
Não vá... fique comigo!"

Tanto amor e juramentos,
que o salgueiro se contorce.

Ouvir quereis, meninas!
Não, não conto ---
a conversa deles é muito picante;
tereis sonhado à noite
--- e é ultrajante!..

Que os dois se distanciem, --- se separem
assim como se encontraram: de mansinho,
bonitinhos. Que ninguém os veja. Para que:
as lágrimas da coitadinha ninguém sinta; e,
também, as do seu cossaco.

Pois que assim seja...
Qu o destino os separe agora;
mas, que no futuro,
a sorte possa uni-los de novo.
Veremos. Assim vive o povo...

Brilham luzes nas janelas ---
são do tytar os ricos aposentos.
Algo deve estar acontecendo!..
Visitemos já, para o sabermos.
Cuidado tomemos, p'ra que não nos vejam!

Quisera não ter visto, p'ra que não contasse!

Por causa das gentes, é vergonhoso;
uma dor na alma e no coração...
Vejam só!.. São os confederados.
Gente reunida para as liberdades defender.
Defendem o que? Desgraçados...
Que a mãe deles seja maldita
--- o dia e a hora que os viu nascer!

Vejam o que se passa
nos aposentos do tytar:

Infernais filhos.
As chamas inflamaram a todos
--- labaredas tomaram a conta da mansão.
Num canto, se apoiando na parede,
o velho taverneiro, feito um cachorro uiva;
ao lado dele, os confederados berram:
"Queres viver? Entregue-nos o dinheiro!".

Agora, ele calado; não respode.

Ataram as mãos cansadas dele,
jogaram o seu corpo ao chão --- e, nada,
nem uma palavra só. --- Emudeceu?..

"Talvez a dor não lhe é tanto!
Que tal carvão queimando!
E o betume derretido?
Vamos aspergi-lo! Assim! Está esfriando?
Mais brasa precisamos!..
Alguma coisa deves falar, seu miserável!
O velhaco nem se lamenta!..
Mas que finório teimoso! Esperem um pouco!"

Encheram de brasa a botina...

"Crave-se um prego no sincipúcio!"

Coitado! Não aguentou o santo castigo;
Tombou o sofredor --- não resistiu!
Partiu... Uma alma se perdeu,
sem uma chance, ao menos
de ter-se confessado!..

"Oksna, filha minha! --- um íltimo suspiro e morreu.

Os lyakhy --- paralisados e pensativos,
então, se perguntaram: "Fazer o que, agora?
Senhores do Conselho! Pensaremos algo ---
com ele nada podemos mais fazer!
Podemos queimar o templo!"

--- Um vozerio!
"Que Deus nos perdoe!
Acreditamos todos em Deus!"
Amotinavam-se os lyakhy.
Gritaram: "Quem é?"
Batia à porta a Oksana.
"Mataram o meu pai, mataram!"
Ao chão caiu como uma pedra,
e desmaiou.

Da turba o lider,
sobre os presentes,
acenou a sua mão e,
todos de pronto silenciaram
--- como se cães domesticados fossem.

Abriu-se a porta e a Oksana:
"Yarema, onde estás tu?"

Yarema, muito distante,
trilha caminhos desconhecidos
--- canções cantando
de como o Nalyvaiko
tenha lutado com os lyakhy.

Tombaram os lyakhy;
com eles, tombou a Oksana.

Ouvia-se uivo de cães em Olshana
--- ora latiam, depois silenciavam...

A lua brilhava; as pessoas dormiam.
O tytar, também dormitava...
Não mais levantaria:
adormeceu para sempre.
As luzes que um dia foram acesas,
se apagaram. Se apagaram p'ra sempre.
Parece que o morto suspirou.
Um silêncio triste,
dos aposentos a conta tomou.

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tytar --- Administrador eclesial, responsável pelo templo e pelas coisas relativas ao
suprimento das necessidades eclesiais
tetarivna --- Filha do tytar
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04/21/2009

sábado, 18 de abril de 2009

Catarse moral

As tumbas do mundo se abriram.
Catarse moral dos humanos pariu
--- tantas desgraças, insultos:
seculares cadeados cairam, agora.
Tudo, que era escondido, emergiu!

Mas por que demorou, tanto tempo,
a moral de fachada se auto - ruir?..
Um sepulcro --- caiado por fora; lá,
por dentro, fedia as desonras:
assim salpicava-se os dias do vir!..

Mas não basta as lájeas se abrirem
-- é preciso fazer-se autópsias reais.
Descobrir-se o que foi vilipendiado --
pela soberba dos homens, é vital. E,
partir em restauro da base moral...

04/18/2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Aos promotores dos bem-feitos de gerúndios factóides

Os catecúmenos lançaram as suas vozes pelos espaços,
acharam-se no direito de o mundo todo persuadir, de que,
em nome do ide do grande Mestre, teriam o direito próprio
de o seu reino pessoal e específico construir.

Exímios promotores de bem-feitos de gerúndios factóides,
dolarizam a fé dos humildes. Aos prostrados se abstraem;
distraindo-se a si mesmos. -- São atores perfeitos! Lentes.
Leem, por entre linhas, o pensar dos subjacentes.

Alguns --- letrólogos formados, buscam espaços culturais.
Encontram, no desabrigo dos despresados, seus ideais...
Porém, quando se sentem estimulados pela miséria e dor,
de posição mudam; tornam-se transfigurados!..

De catecúmenos, que um dia foram, não mais se lembram;
são menestreis do saber pleno. Conversa deles é diferente:
agora são doutores. Da vida são fautores!.. Conversam sós!
--- Que estupidez é esta?.. Respondam, senhores!

04/17/2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um pensamento meu... Será otário?

Encurtaram-se todos os caminhos do mundo.
As paralelas se encontraram mesmo antes do infinito,
globalizando os sonhos dos vendavais do ocidente que,
por causa das suas latitudes, não se entenderam; como
se os ventos seus fossem os ventos únicos do universo.

As chuvas ácidas das nuvens cinzas se gaseificaram ---
não mais cairam... Assim, o solo não mais umidificaram.
Gigantes cúmulus-nimbus se formaram. O ceu taparam!
Os homens, como que petrificados, imunes se fizeram --
não mais água beberam! Os mares salgaram!

Dos oceanos, os vapores não mais foram se destilando...
Nem os continentes se uniram em tectônicos choques --
aos poucos, foram se separando! O que teria acontecido?
Das cordilheiras dos continentes, quem teria a ousadia:
fazer apenas uma festança de confraria?..

Das Cordilheiras Andinas, quem estaria a base retificando?
Eu, cá comigo, fico pensando e, na medida dos pensares,
imagino qual seria hoje o fado dos primevos habitantes ---
que teriam descoberto, antes dos brancos, o Gran Chaco?
Deveia ser dificil, com eles, o Jogo de Buraco!

Mas, as minhas ponderações, vou terminando por aqui!
Não quero que os outros tenham idéias falsas sobre mim
-- sou um pacato pensador "itinerário": ora aqui, ora ali;
porém, viajo seguro sempre: nas mãos um mapa-mundi e,
no coração, o relicário das coisas do ideário!..

04/16/2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Haidamaky --- Os Confederados

Taras H. Shevchenko

Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)

"Abra a taberna; Ó, taverneiro maldito!
Ou terás de arrepender-te... Abra logo!
Derrubem as portas, até que apareça
o velho trapaceiro inutil!"

"Esperem! De uma vez só, agora!
Usar açoites ---
Orelha de porco! Resolveste tu
ainda brincar conosco?"

"Eu? Com os senhorees?
Que Deus me livre!
Agora, permitam-me levantar,
senhores preclaros magnatas!" (Sussurra: "porcos!")

"Senhor Coronel, destrua!"

Arrombada caiu a porta... e o chicote
passeia ao longo do lombo do 'malvado'.

"Meus cumprimentos, porco endemoniado.
tenha meus respeitos, filho do capeta!" E,
mais chicote, chicoteando o lombo do 'malvado'.

O taverneiro se contorcia e gemia adoidado:
"Não brinquem comigo, senhores. Tenham pena!
Por favor, adentrem!"

"Mais chicote! E... mais uma!.. Basta!
Perdoa-nos; Ó, maldito!
Boa tarde em sua casa. Onde está a filha?"

"Morreu, senhores".

"Estás mentindo, seu 'malvado'!
Vai mais chicote!"

Lançaram-se de novo.

"Meus senhores, bons amigos,
juro que ela já está morta!"

"Estás mentindo de novo, seu malvado!"

"Se é mentira,
que Deus me castigue!"

"Não evoque o Deus à toa.
Nós é que punimos. Logo confesse!"

"Por que eu esconderia;
se está viva, que eu seja maldito!.."

"Ah! Ah! Ah! ah!.. Capeta, senhores,
litania (de missa) promove.
Tenham bênçãos todos!"..

"Que sinal da cruz eu faço
--- nem sei como é".

"Assim, veja..."

O lyakh se persigna e,
seguindo-se-lhe o judas
o sinal-da-cruz imita...

"Bravo! Bravo! Persignaram-se.
Mas, por um tal milagre,
comes e bebes queremos, senhores!
Estão nos ouvindo, vós que sois batizados?
Comes e bebes!"

"Já, já... Vai agora!"

Todos urros deram, como se animais fossem
--- urram os lyakhy; os garsons
as mesas de todos servem.
"Jeszcze Polska nie sginiela!" ---
Cada qual bebido, a seu modo grita.
"Mais bebida, taverneiro!"

Taverneiro --- o batizado, em disparada
--- da adega para a choupana:
traz bebida, serve a todos à vontade;
Os confederados gritam: "Traga-nos hidromel!"
Já sem sentidos o taverneiro ---
parece arco de "canga de coice",
encurvado sobre si mesmo.

"Cadê os címbalos!
E cadê os pratilheiros?
Toque agora, seu psyavira!"
A taberna estremece ---
o krakowyak cresce;
dominam a valsa e a mazurka.

O taverneiro,
cochichando consigo mesmo:
"Coisas da Nobreza!"
"Basta! Agora, cante!"
"Por Deus, não sei cantar!"
"Sem falso juramento, cão imundo!"
"E, que canção? A mais engraçada?"

"Era uma vez Gandzya,
pobre e mutilada.
Juramentos fazia,
orações praticava
--- suas pernas eram enfermas:
Nem sempre ela andava.
Não podia fazer a barshchyna;
porém, aos encontros amorosos,
de mansinho --- às escondidas,
entre os arbustos e ervas,
sempre disposta estava".

"Chega! Basta! Esta não é boa:
os Cismáticos gritaram".

"Qual, então seria? Poderia ser esta?
Aguardem, um pouco. Tento recordar-me..."

"Diante do senhor Khvedirko
o pagão vive tremendo
--- anda para a frente e,
para trás volta...
Ele teme o senhorio Khvedor".

"Chega, agora! A vez do pagamento!"

"Estás brincando, senhorio:
pagar o que hei de?"

"Pelo que ouvistes.
Não se aborreça; ó, pobretão!
Não brincamaos. Dinheiro à mesa!"

"De onde tirarei os ducados?
Nenhum grosche eu tenho ---
sou rico de misericórdia do senhorio".

"Não minta, cão imundo! Confesse!
Vamos lá, senhores
--- chicotadas nele!"

Começaram de chicotes os sibilos
--- batizando o infiel pagão de novo.
Açoitaram, e açoitaram
--- que só a pena voou...
"Juro por Deus, nem polushka tenho!
Podem devorar o meu corpo!
Nem polushka! Gritos! Socorro!"

"Já te socorremos".
"Esperem um pouco, direi algo".
"Estamos ouvidos, fale;
porém, não minta.
Mesmo estando morto,
não sairás com mentira".

"Não, em Olshana..."
"Está o teu dinheiro?"
"Meu!.. Deus que me guarde!
Não, eu digo, que lá em Olshana...

Os Cismáicos co-habitam
--- de três a quatro famílias,
numa única choupana".

"Disto nós sabemos,
porque nós os esbulhamos".

"Não, não é isto... desculpem-me...
Para que não tenhais surpresa,
para que o dinheiro vosso seja...

Saibam que lá em Olshana
há uma clerezia...
lá há um tytar...
a sua filha Oksana!
Deus a guarde! Que senhorita!
Que bondade!
E o dinehiro! Embora, não seja dele.
Pouco importa. É dinheiro mesmo".

"Se é dinheiro, tanto faz!
Diz verdade o pagão imundo.
Para ter-se a certeza da verdade,
é seguir só o caminho, até a cidade.
Todos a caminho!"

Foram os lyakhy até a Olshana.
Debaixo de um escabelo
um confederado bebum
--- não consegue levantar-se; e,
o resto do galinheiro grita:
“My zyjemy, my zyjemy,
Polska nie zginela”.

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lyakh --- designação com os ucranianos identificavam os poloneses
Jeszcze Polska nie sginiela! --- A Polônia não morreu ainda!
psyavira ---(ukr.) Diziam os poloneses, a respeito dos rusynos (os ucranianos), de que cada rusyno era um cão (sobaka) e que a sua fé (vira) era uma fé de sobaka (sobacha vira). Em polones, "psyavira" (fé de cão).
krakowyak --- dança polonesa
mazurka --- dança polonesa
barshchyna --- No tempo da servidão, er o trabalho obrigatório e gratuito do campones para o seu senhor
Cismáticos --- Designação pejorativa dos ortodoxos, dentro da RezcPospolita. Em ucraniano seria "rozkol'nyky". Os que não seguiam a fé dos uniatas greco-católicos).
Khvedirko e Khvedor --- é o mesmo personagem
ducados --- Antiga moeda de outro do império Áustro-Húngaro e da Rússia
groshi --- Moeda russa. Aqui, equivale a nenhum vintém eu tenho
polushka --- Moeda de troco,
equivalia a 1/4 de kopeika que, por sua vez, equivalia a 1/100 de rublo antigo
clerezia --- Classe clerical, pertencente a Igreja Católica Romana tytar (ktytar) --- Sinificado original do grego, fundador ou construtor do templo cristão; depois, o que cuidava das coisas e das necessidades do templo
My zyjemy, my zyjemy, Polska nie zginela” --- Nós estmos vivos, nós estamos vivos; a Polônia não morreu.
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04/15/2009