Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
"Eu sou a órfã de Olshana
--- sou órfã, avó.
Meu pai foi castigado pelos lyakhy e,
eu... eu tenho medo.
Tenho medo de recordar o passado,
vovozinha de cabelos brancos...
Levaram-me com eles.
Não me pergunte mais nada
sobre o que aconteceu comigo.
Eu rezei muito, chorei ---
o meu coração espedaçou-se;
as lágrimas secaram e
a minha alma mortificou-se...
Se eu soubesse
que o veria mais uma vez
--- que o vereria de novo,
suportaria as dores em dobro
e por mais de uma vez.
Uma palavra dele apenas bastaria!
Perdoa-me, minha velhinha;
talvez, eu tenha pecado ---
será que Deus, por isto,
terá me castigado?
Eu amei apenas
aquele jovem elegante
de olhos castanhos.
Eu amei apenas
do jeito que o meu coração sabia.
Quando estava em cativeiro,
não rezei por mim,
nem por meus pais --- eu rezei
por ele e pela sorte dele.
Deus que me castigue!
A verdade dEle eu aceito.
É triste dizê-lo: eu pensava
perder a minh'alma.
Se por ele não fosse,
talvez teria perdido... talvez
a minh'alma não teria sobrevivido.
Triste era! Eu pensava:
"Deus querido!
Ele é órfão, --- sem que seja eu,
quem o terá acolhido?
Quem lhe terá perguntado
qual a sorte e qual a desgraça,
ao seu redor, teria pousado?
Quem o terá abraçado,
abrindo-lhe a alma sua?
Quem, ao pobre órfão,
dará uma palavra amiga, de conforto
--- sem deixá-lo no olho da rua?"
Quando assim pensava eu,
o meu coração sorria:
"Também sou órfã: sem mãe e
sem pai. Estou só no mundo...
Também, ele sozinho vagueia.
Se souber que eu não existo,
dará fim à sua vida". Este era
o meu pensamento. --- Rezei,
rezei muito; esperei na janela.
O meu amado não apareceu
--- talvez, jamais volte:
ficarei sozinha para sempre..."
Pela face, a lágrima rolou.
A freira, a seu lado,
ficou entristecida --- nada falou.
"Minha anciã senhora!
Por favor, diga-me onde estou?"
"Meu pássaro singelo, estás em Lebedyn.
Não te levantes --- estás adoentada".
"Em Lebedyn! Há quanto tempo?"
"Pois não tão muito. Desde ante-ontem".
"Desde ante-ontem?.. Espere um pouco!..
Incêndio às margens do rio...
Taberneiro, castelo, Maidanivka...
Chamavam-no de Halaida..."
"Halaida Yarema, ele
disse que era o nome dele
--- aquele que te trouxe..."
"Onde está ele, onde?
Agora eu sei!.."
"Disse que, em uma semana,
voltaria para buscar-te".
"Uma semana! Uma semana!
Deus meu, que valha-me a sorte!
Minha anciã senhora,
a hora triste da desventura está passando!
Aquele Halaida --- meu Yarema!..
Ele é conhecido por toda a Ucrânia. Eu vi
quando os vilarejos queimavam; eu vi ---
os lyakhy tremendo de pavor, simplesmente
por ouvirem o nome dele sendo pronunciado.
Sabem todos quem é ele e de onde ele veio!
Halaida sabe a quem procura!
Ele procurou-me e me achou.
Vem buscar-me, ó águia minha!
Como é belo viver neste mundo...
Uma semana apenas;
minha anciã senhora --- restam três dias tão só.
Como o tempo demora a passar!..
“Загрібай, мамо, жар, жар,
Буде тобі дочки жаль, жаль…”
Como é belo viver neste mundo...
O que me diz, minha anciã senhora.
--- Sentes alegria, também?"
"Estou contente mais contigo, minha pequena".
"Por que, então, não cantas tu?"
"Já cantei demais na minha vida..."
Os sinos badalaram
--- era o sinal da hora de rezar.
Oksana ficou sozinha meditando e
a freira, após a sua reza vespertina,
se recolheu para repousar.
No final da semana,
na igreja de Lebedyn,
os fieis cantavam "Que se Rejubile Isaias!".
Logo pela manhã,
o Yarema e a Oksana se casavam.
Depois, à tarde --- para não contrariar o otomano,
(Que menino, cumpridor de seus deveres!)
Yarema deixava a sua Oksana:
Era preciso exterminar os inimigos
nas fogueiras de Umanshchyna.
Oksana, paciente espera ---
não virão buscá-la, os pais de Yarema,
para levá-la desta cela do mosteiro,
para a rica casa do seu amado?
Não fique tristonha, tenha a esperança
a reze a Deus. Que Ele não te abandona!
Eu, darei um pulo para outro lado
--- quero ver o que se passa
pelas bandas lá de Uman.
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"Que se Rejubile Isaias!" --- Canto eclesial, por ocasião da celebração
de casamentos (Isaiya, lykui!)
Uman --- Grande centro comercial, durante os anos 60, do séc. XVIII
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05/25/2009
Aqui publicarei os meus escritos ---- versos, poemas e poemetos.
Fico grato, desde já, se você se dignar a lê-los. Ao menos, levemente.
Ao seu dispor, agora e eternamente.
Mykola Szoma
segunda-feira, 25 de maio de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
Haidamaky --- Banquete em Lysianka
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Entardecia... De Lysianka,
ao redor, tudo ilumonou-se:
Era Honta e Zalyzniak ---
seus cachimbos acendiam.
Horrívelmente fumaram tanto
que até no inferno não se faz
tanta fumaça como produzir.
Hnylyj Tykych todo vermelho,
tingido de sangue mercantil e
da nobreza dos dvoriany.
As labaredas encobriram
as simples choupanas e
as mansões de renome;
Parece que a sorte dá o castigo
ao todo poderoso e, também, ao
pobretão --- aquele sem nome.
No centro da praça
o Honta hirsuto, ao lado de Zalyzniak,
ordena aos gritos: "Morte aos lyakhy!
Castigo sem tregua! Se arrependam!
--- de nos terem zombado. Aprendam".
Os rapazes aplicavam os castigos.
Todos gemiam, choravam, gritavam
--- não achavam abrigos. Maldiziam,
outros rezavam: perdão, aos já mortos,
pediam. Confessavam pecados; porém,
nem assim sobreviviam. E, ...morriam!..
A morte severa a todos levava
--- não dava ouvidos aos gritos
nem os anos em conta apontava;
meninas, donzelas e velhos:
a todos ceifava. Mesmo um aleijado
que houvesse, a ela não escpava.
Não restou uma alma viva
que, da hora vingativa,
pudesse contar a história, ---
de como arderam as chamas
da festa macabra de Lysianka.
Gritava Halaida... enfurecido gritava:
"Gastigo aos lyakhy, castigo!"
Até parecia um doido ---
por sobre os caidos pisava;
os já mortos, incinerar mandava.
"Mais um lyakhy, um inimigo!
Muito pouco... tragam mais!
O mar é pequeno... é vermelho demais...
Oksana! Oksana!
Onde estás tu?" --- seus gritos ecoam;
saidos das chamas. Labaredas encobrem
os seus ziguezagues bestiais...
Neste instante, os haidamaky
estenderam as mesas na praça
--- era hora de ingerir alimentos;
conseguidos alhures, sem pejo.
Um jantar, antes do sol se deitar.
"À farra!" --- todos gritaram.
Ao redor da mesa se postaram.
Mais além, o inferno a tudo envolvia.
Entre as labaredas, vultos em brasa
--- senhores de outrora; nada agora!
Junto aos caibros, todos queimando.
"Bebam, rapazes! Bebam!
Derramem toda a bebida;
talvez encontremos outros senhores
--- então, uma nova farra teremos!"
E, Zalyzniak, numa tragada só,
com maestria, a sua taça enxuga.
"Sufrago pela alma dos que partiram
--- os malditos condenados a purgar
os seus pecados na terra cometidos.
Bebamos mais, rapazes! Bebamos!..
Meu irmão Honta, bebamos mais!
À farra, todos! Todos aos pares.
Onde está o Volokh?
Venha cantar-nos... ó, velho kobzar!
Mas não nos cante dos nossos pais.
Os nossos atos também são imortais
--- soubemos derrotar os inimigos;
também, não fales sobre a tristeza ---
alegres somos: só vejas esta mesa...
Uma canção alegre executes,
até que a terra toda estremeça ---
mostre-nos uma donzela, uma viuva.
Como contê-la entre os abraços,
até que totalmente ela se aborreça".
Kobzar (tocando e cantando)
"De vilarejo em vilarejo ---
por toda a parte,
só se ouve a música e
se dança com arte.
Vendi os ovos e a galinha;
comprarei sapatos amanhã.
De vilarejo em vilarejo ---
por toda a parte,
só se dança com arte:
Não tenho vaca,
não tenho toro;
tenho uma casa
em que eu moro.
Venderei esta casa.
Talvez, até de graça darei
ao meu compadre... Farei
uma tenda beirando mural
-- venderei bebes e comes.
Que tal?
De farras, a vida levarei ---
dançarina eterna eu serei!
Ouçam, meus filhos:
Mus frágeis pombinhos,
Nã se entristeçam!..
Apreciem os passos meus
-- de dança os compassos,
são vossos abraços. Tereis
seus sapatos vermelhos e,
tereis a escola. Vos darei!.."
"Muito bem! Muito bem!
Queremos que dance agora.
És kobzar e tua é esta hora!"
O cego tangeu as cordas;
agachado, jogou as pernas
de um lado para outro --- e,
saltitando dançava o hopak.
A praça toda estremecia ---
vergava a terra sob os pés...
"Entre na dança, Honta!"
"Vamos então, irmão Maksym!
Enquanto vivos estamos. Afinal,
nós irmanados somos por que!"
"Não se espantem
que sou maltrapilho;
meu pai sempre foi honesto
--- como ele, também sou".
"Estás certo, irmãozinho ---
por Deus, juro!"
"Vez agora é tua, Maksym!"
"Espere um pouco... mais um pouco só!"
"Desse jeito, como eu faço:
ame a filha, seja ela de quem for
--- pode ser do padre, ou do sacristão,
também pode ser a do campônio.
Desde que seja bela e aceite a tua mão".
Alegres, todos dançando;
Halaida fechado em si mesmo
--- sentado na ponta da mesa,
nada ouvindo, nem vendo;
apenas triste chorando.
Até parece uma criança.
Mas chora por que? Direi agora:
Vestido de zhupan vermelho...
Tem glória, tem ouro e tem fama;
porém, não tem junto de si
a sua querida Oksana.
Não tem com quem dividir a sorte desdita,
nem cantar os sofrimentos, ao lado daquela,
que poderia minorar as suas dores: Só ela!..
Mas o Halaida não sabe,
que a sua Oksana,
do outro lado do rio,
os seus dias afoga em tristeza
--- nos umbrais e janelas dos lyakhy,
daqueles que o seu pai trucidaram.
Como outros irmãos --- seus patrícios,
escrava de nobres velhacos ela ficara.
Os raios das luzes,
de Lysianka em chamas,
as janelas todas iluminam e
induzem ao pensamento:
"Onde estará o meu Yarema?" ---
pensando assim, Oksana clama.
Não sabe ela, que está ali
o seu amado, sofrendo em Lysianka.
Não mais um simples maltrapilho;
agora é um mandante,
vestido de zhupan vermelho.
Sentado junto à mesa, ele pensa:
"Onde estará a minha Oksana?
Minha querida, minha pombinha.
Submissa, estará chorando?.."
Abatido, sobre a mesa se reclina.
Na encosta
um vulto cossaco
leve se desloca.
"Quem é?" --- Pergunta Halaida.
"Sou mensageiro do Honta.
Ele está se divertindo ---
eu não tenho pressa".
"Mas eu tenho; fale logo,
seu Leiba cachorro!"
"Deus me livre, não sou Leiba!
Estás me vendo? Sr. Haidamaka!
Eis a kopiyka... Queiras ver!..
Ou, tu não a conheces?"
"Sim, conheço! --- sacando da botina
o tarani bento. --- Quero a verdade.
Onde está a minha Oksana?" ---
Meneou as mãos...
"Deus a guarde!..
Está com os senhorios...
nos aposentos. Coberta de ouro".
"Quero a tua ajuda!
Tua ajuda agora, ó maldito!"
"Sim senhor! Agora mesmo...
Sr. Yarema enamorado!
Irei agora libertá-la:
Um bom dinheiro consegue tudo.
Direi aos lyakhy --- ao invés de Pac..."
"De acordo! Entendo a trama.
Depressa! Que vas agora!"
"Vou indo já, agora!
Mantenham o Honta se distraindo;
que ele se divirta até a meia-noite.
O resto fica por minha conta...
Saber quero apenas:
levá-la devo para onde?"
"Para Lebedyn!
Para Lebedyn, --- ouviste?"
"Ouvi, ouvi".
A bailado cossaco continua.
Halaida e Honta hopak saltitam e
Zalyzniak toma a kobza;
ferindo-lhe as cordas,
convida o kobzar
para que este mostre
como sabe ele dançar.
"Kobzar é tua vez agora
--- enquanto eu tocarei,
dançarás tu a tua hora".
E começou o dançarino
--- tomou a conta do bazar.
Saltitando se animou tanto que,
a seguir, começou a cantar:
"Nos jardins há pastinacas...
Eu não sou o teu cossaco taco?
Ou será que não te amo?.. Te amo!
Não daria eu te sapatos lindos?..
Sim, daria!.. Compraria tudo novo
para a minha moreninha ---
a amada de olhos castanhos".
"Hup-lá!.. Hurra! Hip.. hopak!
Apaixonou-se pelo cossaco,
que era um ruivo e muito velho
--- que sorte ingrata era a dela!..
Ó sorte! Siga a sua desventura
e tu --- ó velho!, saias desta com finura.
Eu, por mim, irei até à taverna.
Tomarei um gole, tomarei dois goles;
um terceiro, para sentir-me mais triste.
Mais um gole --- um quinto, um sexto,
até o final... Vejo mulheres bailando,
seguidas por um pardal.
Sapateando --- batendo os pés,
saltitando --- palmas batendo...
Mas não te acanhes, ó pardal!..
O velho ruivo convida uma velha para dançar;
recebe, em troca, uma figa --- sem disfarçar.
Depois: "Seu capeta traquinas, por que
não te casas, para não vadiares pelas esquinas;
deverias aprender a descortiçar o painço ---
alimentar as cianças e, de seus filhos cuidar.
Da minha parte, eu vou os meus proventos ganhar;
e tu, já velho de idade, não peques tanto assim ---
é melhor que, numa estufa, te busques aquecer.
De bruços deitado, respirando sem esmorecer".
"Quando eu era mais novinha e mais agradável,
pindurava a minha zapaska no postigo de janela;
e quem por ali passava --- sempre a notava.
Acenava e sussurrava; depois, para mim piscava.
Enquanto em seda eu bordava, pelo postigo,
o passeio dos rapazes deliciosamente apreciava!
Eram os Semen, eram os Ivan
--- todos vestidos de zhupan...
Passeavamos pelos campos;
depois, cantavamos todos ambos".
"Que se tranque a poedeira numa gaiola,
os pintinhos --- seus filhinhos, na primeira..."
............................................
............................................
"Eia! Hurra! Entortou o velho a ferradura;
a mãe puxa a barrigueira --- filha, força!
Amarre agora, na parte traseira".
"Mais ainda? Ou, já basta?"
"Mais um pouco!
Não sendo eu assim bela!
Porém, são pernas próprias que me carregam."
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com agárico e salsinha picadinhos:
Com babunha e didunha,
sempre juntinhos, ---
felizes e sorridentes!
* * *
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com agárico e salsinha picadinhos:
.....................
.....................
* * *
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com rábano-bastardo picadinho:
* * *
"Ah! Sirva água, muito mais água; depois,
procuremos um caminho pelo rio --- um vau!.."
"Basta! Basta! --- grita o Honta.
Basta, anoitece.
Rapaziada, luz acendam!..
E o Leiba onde está?
Não chegou ainda?
Encontremo-lo, agora.
Que enforcado ele seja! Ali... --- lá.
Porcalhão de botoeira!
Rapazes, Halaida! Já se apaga
o lampião cossaco".
Responde o Halaida: "Otamano!
Passeiemos, ó meu caro!
Vejas --- há labaredas; lá na praça,
que todos vejam
as chamas limpando tudo.
À dança. Vamos, toque a kobza!"
"Não. A dança não mais se coaduna!
Agora, mais fogo precisamos implementar!
Tragam mais alcatrão e mais estopa!
Tragam morteiros ---
lancem obuses sobre os esconderijos!
Que ninguem pense, que estou brincando!"
Os haidamaky puseram-se a gritar.
"Muito bem, nosso guia! Estamos ouvidos!"
Pelo açude se lançara,
os haidamaky gritando e cantando.
Lá de longe, o Halaida clama: "Guia!
Esperes por mim!.. Perdido, eu estou morrendo!
Tenhais misericórdia, não queimeis:
Lá está a minha Oksana! Compaixão dela tenhais!
Mais uma horinha, apenas
--- para que eu possa resgatá-la!"
"Está bem!.. Zalyzniak,
ordene para que incendeiem.
Ela partirá junto com os lyakhy...
E tu, pombo apaixonado,
encontrarás uma outra".
Olhou para trás ---
não mais viu o Halaida.
Brada o monte --- a velha fortaleza,
com os lyakhy se diverte,
esbarrando até as nuvens.
O restante, transformou-se num inferno...
"Onde está o halaida?" --- Maksym chama.
Nem sinal dele restou...
--- No silêncio mergulhou.
Enquanto os rapazes dançavam,
Leiba com o Yarema,
nos esconderijos do forte,
de mansinho se infiltravam.
Resgatarm a Oksana --- já quase sem vida.
Yarema, cumprindo as ordens,
levou a Oksana até o Lebedyn...
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Hnyly Tykych --- Rio sobre o qual está o vilarejo de Lysianka. É afluente de Buh.
dvoriany --- Grandes proprietários de terras, latifundiários
Leiba --- Era um taberneiro que, depois de ser caloteado pelos confederados,
juntou-se aos haidamaky
Haidamaka --- Forma singular (caso nominativo) de haidamaky
kopiyka --- Havia uma lenda de que uma moeda de 1 kopiyka com esfígie de
Kateryna II (1 copeque, moeda de liga de prata, equivalia a 1 centésimo
de rublo) servia de identificação entre os haidamaky.
ao invés de Pac --- Referência original ao Pac (Jan Pac) se fez em "Haidamaky -
Introdução"
Lebedyn --- Monastério feminino que ficava no vilarejo de nome igual
bazar --- Lugar a céu aberto, onde se faz o comércio em geral, ou uma praça onde
se reune o povo
pastinacas --- (pastinagas) Plural de "pastinaca", ervas eurásias, com folhas pinadas
e umbelas compostas de flores amarelas e muitas sementes ovais
achatadas
cossaco taco --- cossaco corajoso (adj. taco = corajoso)
zapaska --- Vestimenta feminina que era usada em substituição à anagua (saia
de baixo)
drinque de syrivets --- Bebida fermentada, feita de farinha
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05/19/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Entardecia... De Lysianka,
ao redor, tudo ilumonou-se:
Era Honta e Zalyzniak ---
seus cachimbos acendiam.
Horrívelmente fumaram tanto
que até no inferno não se faz
tanta fumaça como produzir.
Hnylyj Tykych todo vermelho,
tingido de sangue mercantil e
da nobreza dos dvoriany.
As labaredas encobriram
as simples choupanas e
as mansões de renome;
Parece que a sorte dá o castigo
ao todo poderoso e, também, ao
pobretão --- aquele sem nome.
No centro da praça
o Honta hirsuto, ao lado de Zalyzniak,
ordena aos gritos: "Morte aos lyakhy!
Castigo sem tregua! Se arrependam!
--- de nos terem zombado. Aprendam".
Os rapazes aplicavam os castigos.
Todos gemiam, choravam, gritavam
--- não achavam abrigos. Maldiziam,
outros rezavam: perdão, aos já mortos,
pediam. Confessavam pecados; porém,
nem assim sobreviviam. E, ...morriam!..
A morte severa a todos levava
--- não dava ouvidos aos gritos
nem os anos em conta apontava;
meninas, donzelas e velhos:
a todos ceifava. Mesmo um aleijado
que houvesse, a ela não escpava.
Não restou uma alma viva
que, da hora vingativa,
pudesse contar a história, ---
de como arderam as chamas
da festa macabra de Lysianka.
Gritava Halaida... enfurecido gritava:
"Gastigo aos lyakhy, castigo!"
Até parecia um doido ---
por sobre os caidos pisava;
os já mortos, incinerar mandava.
"Mais um lyakhy, um inimigo!
Muito pouco... tragam mais!
O mar é pequeno... é vermelho demais...
Oksana! Oksana!
Onde estás tu?" --- seus gritos ecoam;
saidos das chamas. Labaredas encobrem
os seus ziguezagues bestiais...
Neste instante, os haidamaky
estenderam as mesas na praça
--- era hora de ingerir alimentos;
conseguidos alhures, sem pejo.
Um jantar, antes do sol se deitar.
"À farra!" --- todos gritaram.
Ao redor da mesa se postaram.
Mais além, o inferno a tudo envolvia.
Entre as labaredas, vultos em brasa
--- senhores de outrora; nada agora!
Junto aos caibros, todos queimando.
"Bebam, rapazes! Bebam!
Derramem toda a bebida;
talvez encontremos outros senhores
--- então, uma nova farra teremos!"
E, Zalyzniak, numa tragada só,
com maestria, a sua taça enxuga.
"Sufrago pela alma dos que partiram
--- os malditos condenados a purgar
os seus pecados na terra cometidos.
Bebamos mais, rapazes! Bebamos!..
Meu irmão Honta, bebamos mais!
À farra, todos! Todos aos pares.
Onde está o Volokh?
Venha cantar-nos... ó, velho kobzar!
Mas não nos cante dos nossos pais.
Os nossos atos também são imortais
--- soubemos derrotar os inimigos;
também, não fales sobre a tristeza ---
alegres somos: só vejas esta mesa...
Uma canção alegre executes,
até que a terra toda estremeça ---
mostre-nos uma donzela, uma viuva.
Como contê-la entre os abraços,
até que totalmente ela se aborreça".
Kobzar (tocando e cantando)
"De vilarejo em vilarejo ---
por toda a parte,
só se ouve a música e
se dança com arte.
Vendi os ovos e a galinha;
comprarei sapatos amanhã.
De vilarejo em vilarejo ---
por toda a parte,
só se dança com arte:
Não tenho vaca,
não tenho toro;
tenho uma casa
em que eu moro.
Venderei esta casa.
Talvez, até de graça darei
ao meu compadre... Farei
uma tenda beirando mural
-- venderei bebes e comes.
Que tal?
De farras, a vida levarei ---
dançarina eterna eu serei!
Ouçam, meus filhos:
Mus frágeis pombinhos,
Nã se entristeçam!..
Apreciem os passos meus
-- de dança os compassos,
são vossos abraços. Tereis
seus sapatos vermelhos e,
tereis a escola. Vos darei!.."
"Muito bem! Muito bem!
Queremos que dance agora.
És kobzar e tua é esta hora!"
O cego tangeu as cordas;
agachado, jogou as pernas
de um lado para outro --- e,
saltitando dançava o hopak.
A praça toda estremecia ---
vergava a terra sob os pés...
"Entre na dança, Honta!"
"Vamos então, irmão Maksym!
Enquanto vivos estamos. Afinal,
nós irmanados somos por que!"
"Não se espantem
que sou maltrapilho;
meu pai sempre foi honesto
--- como ele, também sou".
"Estás certo, irmãozinho ---
por Deus, juro!"
"Vez agora é tua, Maksym!"
"Espere um pouco... mais um pouco só!"
"Desse jeito, como eu faço:
ame a filha, seja ela de quem for
--- pode ser do padre, ou do sacristão,
também pode ser a do campônio.
Desde que seja bela e aceite a tua mão".
Alegres, todos dançando;
Halaida fechado em si mesmo
--- sentado na ponta da mesa,
nada ouvindo, nem vendo;
apenas triste chorando.
Até parece uma criança.
Mas chora por que? Direi agora:
Vestido de zhupan vermelho...
Tem glória, tem ouro e tem fama;
porém, não tem junto de si
a sua querida Oksana.
Não tem com quem dividir a sorte desdita,
nem cantar os sofrimentos, ao lado daquela,
que poderia minorar as suas dores: Só ela!..
Mas o Halaida não sabe,
que a sua Oksana,
do outro lado do rio,
os seus dias afoga em tristeza
--- nos umbrais e janelas dos lyakhy,
daqueles que o seu pai trucidaram.
Como outros irmãos --- seus patrícios,
escrava de nobres velhacos ela ficara.
Os raios das luzes,
de Lysianka em chamas,
as janelas todas iluminam e
induzem ao pensamento:
"Onde estará o meu Yarema?" ---
pensando assim, Oksana clama.
Não sabe ela, que está ali
o seu amado, sofrendo em Lysianka.
Não mais um simples maltrapilho;
agora é um mandante,
vestido de zhupan vermelho.
Sentado junto à mesa, ele pensa:
"Onde estará a minha Oksana?
Minha querida, minha pombinha.
Submissa, estará chorando?.."
Abatido, sobre a mesa se reclina.
Na encosta
um vulto cossaco
leve se desloca.
"Quem é?" --- Pergunta Halaida.
"Sou mensageiro do Honta.
Ele está se divertindo ---
eu não tenho pressa".
"Mas eu tenho; fale logo,
seu Leiba cachorro!"
"Deus me livre, não sou Leiba!
Estás me vendo? Sr. Haidamaka!
Eis a kopiyka... Queiras ver!..
Ou, tu não a conheces?"
"Sim, conheço! --- sacando da botina
o tarani bento. --- Quero a verdade.
Onde está a minha Oksana?" ---
Meneou as mãos...
"Deus a guarde!..
Está com os senhorios...
nos aposentos. Coberta de ouro".
"Quero a tua ajuda!
Tua ajuda agora, ó maldito!"
"Sim senhor! Agora mesmo...
Sr. Yarema enamorado!
Irei agora libertá-la:
Um bom dinheiro consegue tudo.
Direi aos lyakhy --- ao invés de Pac..."
"De acordo! Entendo a trama.
Depressa! Que vas agora!"
"Vou indo já, agora!
Mantenham o Honta se distraindo;
que ele se divirta até a meia-noite.
O resto fica por minha conta...
Saber quero apenas:
levá-la devo para onde?"
"Para Lebedyn!
Para Lebedyn, --- ouviste?"
"Ouvi, ouvi".
A bailado cossaco continua.
Halaida e Honta hopak saltitam e
Zalyzniak toma a kobza;
ferindo-lhe as cordas,
convida o kobzar
para que este mostre
como sabe ele dançar.
"Kobzar é tua vez agora
--- enquanto eu tocarei,
dançarás tu a tua hora".
E começou o dançarino
--- tomou a conta do bazar.
Saltitando se animou tanto que,
a seguir, começou a cantar:
"Nos jardins há pastinacas...
Eu não sou o teu cossaco taco?
Ou será que não te amo?.. Te amo!
Não daria eu te sapatos lindos?..
Sim, daria!.. Compraria tudo novo
para a minha moreninha ---
a amada de olhos castanhos".
"Hup-lá!.. Hurra! Hip.. hopak!
Apaixonou-se pelo cossaco,
que era um ruivo e muito velho
--- que sorte ingrata era a dela!..
Ó sorte! Siga a sua desventura
e tu --- ó velho!, saias desta com finura.
Eu, por mim, irei até à taverna.
Tomarei um gole, tomarei dois goles;
um terceiro, para sentir-me mais triste.
Mais um gole --- um quinto, um sexto,
até o final... Vejo mulheres bailando,
seguidas por um pardal.
Sapateando --- batendo os pés,
saltitando --- palmas batendo...
Mas não te acanhes, ó pardal!..
O velho ruivo convida uma velha para dançar;
recebe, em troca, uma figa --- sem disfarçar.
Depois: "Seu capeta traquinas, por que
não te casas, para não vadiares pelas esquinas;
deverias aprender a descortiçar o painço ---
alimentar as cianças e, de seus filhos cuidar.
Da minha parte, eu vou os meus proventos ganhar;
e tu, já velho de idade, não peques tanto assim ---
é melhor que, numa estufa, te busques aquecer.
De bruços deitado, respirando sem esmorecer".
"Quando eu era mais novinha e mais agradável,
pindurava a minha zapaska no postigo de janela;
e quem por ali passava --- sempre a notava.
Acenava e sussurrava; depois, para mim piscava.
Enquanto em seda eu bordava, pelo postigo,
o passeio dos rapazes deliciosamente apreciava!
Eram os Semen, eram os Ivan
--- todos vestidos de zhupan...
Passeavamos pelos campos;
depois, cantavamos todos ambos".
"Que se tranque a poedeira numa gaiola,
os pintinhos --- seus filhinhos, na primeira..."
............................................
............................................
"Eia! Hurra! Entortou o velho a ferradura;
a mãe puxa a barrigueira --- filha, força!
Amarre agora, na parte traseira".
"Mais ainda? Ou, já basta?"
"Mais um pouco!
Não sendo eu assim bela!
Porém, são pernas próprias que me carregam."
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com agárico e salsinha picadinhos:
Com babunha e didunha,
sempre juntinhos, ---
felizes e sorridentes!
* * *
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com agárico e salsinha picadinhos:
.....................
.....................
* * *
"Ah! Sirva um drinque de syrivets
com rábano-bastardo picadinho:
* * *
"Ah! Sirva água, muito mais água; depois,
procuremos um caminho pelo rio --- um vau!.."
"Basta! Basta! --- grita o Honta.
Basta, anoitece.
Rapaziada, luz acendam!..
E o Leiba onde está?
Não chegou ainda?
Encontremo-lo, agora.
Que enforcado ele seja! Ali... --- lá.
Porcalhão de botoeira!
Rapazes, Halaida! Já se apaga
o lampião cossaco".
Responde o Halaida: "Otamano!
Passeiemos, ó meu caro!
Vejas --- há labaredas; lá na praça,
que todos vejam
as chamas limpando tudo.
À dança. Vamos, toque a kobza!"
"Não. A dança não mais se coaduna!
Agora, mais fogo precisamos implementar!
Tragam mais alcatrão e mais estopa!
Tragam morteiros ---
lancem obuses sobre os esconderijos!
Que ninguem pense, que estou brincando!"
Os haidamaky puseram-se a gritar.
"Muito bem, nosso guia! Estamos ouvidos!"
Pelo açude se lançara,
os haidamaky gritando e cantando.
Lá de longe, o Halaida clama: "Guia!
Esperes por mim!.. Perdido, eu estou morrendo!
Tenhais misericórdia, não queimeis:
Lá está a minha Oksana! Compaixão dela tenhais!
Mais uma horinha, apenas
--- para que eu possa resgatá-la!"
"Está bem!.. Zalyzniak,
ordene para que incendeiem.
Ela partirá junto com os lyakhy...
E tu, pombo apaixonado,
encontrarás uma outra".
Olhou para trás ---
não mais viu o Halaida.
Brada o monte --- a velha fortaleza,
com os lyakhy se diverte,
esbarrando até as nuvens.
O restante, transformou-se num inferno...
"Onde está o halaida?" --- Maksym chama.
Nem sinal dele restou...
--- No silêncio mergulhou.
Enquanto os rapazes dançavam,
Leiba com o Yarema,
nos esconderijos do forte,
de mansinho se infiltravam.
Resgatarm a Oksana --- já quase sem vida.
Yarema, cumprindo as ordens,
levou a Oksana até o Lebedyn...
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Hnyly Tykych --- Rio sobre o qual está o vilarejo de Lysianka. É afluente de Buh.
dvoriany --- Grandes proprietários de terras, latifundiários
Leiba --- Era um taberneiro que, depois de ser caloteado pelos confederados,
juntou-se aos haidamaky
Haidamaka --- Forma singular (caso nominativo) de haidamaky
kopiyka --- Havia uma lenda de que uma moeda de 1 kopiyka com esfígie de
Kateryna II (1 copeque, moeda de liga de prata, equivalia a 1 centésimo
de rublo) servia de identificação entre os haidamaky.
ao invés de Pac --- Referência original ao Pac (Jan Pac) se fez em "Haidamaky -
Introdução"
Lebedyn --- Monastério feminino que ficava no vilarejo de nome igual
bazar --- Lugar a céu aberto, onde se faz o comércio em geral, ou uma praça onde
se reune o povo
pastinacas --- (pastinagas) Plural de "pastinaca", ervas eurásias, com folhas pinadas
e umbelas compostas de flores amarelas e muitas sementes ovais
achatadas
cossaco taco --- cossaco corajoso (adj. taco = corajoso)
zapaska --- Vestimenta feminina que era usada em substituição à anagua (saia
de baixo)
drinque de syrivets --- Bebida fermentada, feita de farinha
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05/19/2009
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Haidamaky --- Hupalivshchyna
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Sol nascente; Ucrânia ---
ardia em chamas lentamente e,
a shliakhta trancafiada,
em seus aposentos, desfalecia.
Por todos os vilarejos, enforcamentos;
Corpos pindurados ---
dos magnatas; os comuns da shliakhta
eram todos amontoados.
Pelas ruas, nas encruzilhadas
cães e corvos vorazes
deliciavam-se a contento,
bicando os olhos da shliakhta.
Ninguém proibia nada...
Nem havia para quem ficassem
os cães e as crianças; ---
As mulheres, com os seus cavalos,
se aliaram aos haidamaky.
Assim era o desmando
por toda a Ucrânia!
Mais terrível que o inferno... E, por que?
Por que o povo sofre?
Tal pai, serão assim os filhos, ---
viver apenas e fraternizar-se...
Mas não, não souberam, não quiseram;
era preciso separar-se!
Era preciso ver sangue, sangue de irmãos;
a inveja não permitia que, na sua despensa,
proventos houvesse e, nos seus jardins,
a alegria bailasse a contento! Oh! ... não!..
"Mataremos a nosso irmão!
Queimaremos a sua choupana!" ---
Disseram, e assim o fizeram.
Parece tudo ser um castigo
--- órfãos restaram. E só!..
Cresceram chorando. Adultos se tornaram;
mãos calejadas suas ficaram --- sangue
pelo sangue. Assim se vingaram!
O coração se contrai dolorido,
ao recordar o passado partido:
dos eslavos antigos, os filhos,
o gosto de sangue respiram.
De quem foi a culpa? Não há?
--- Na certa que são
os ksendzy, os jesuitas.
Trafegavam os haidamaky
pelas florestas, pelos bosques.
Eram seguidos pelo Halaida
com as lágrimas nos olhos.
Já passaram a Voronivka,
a Verbivka e adentraram em Olshava.
"Não será de bom alvitre perguntar
se a Oksana ainda existe? Não!
Não farei esta pergunta nunca
para que jamais descubram
por quem tanto o meu ser padece".
A Olshava já ficou distante agora.
A pergunta se refez, de novo:
"É verdade que o tytar foi batido?"
"Sim, meu senhorio. Meu pai disse
que ele foi queimado pelos lyakhy
e a sua filha foi por eles capturada.
Ontem mesmo, o tytar foi sepultado."
Nem todo ouvidos... "Leve, o cavalo ruço!"
E jogou as rédeas.
"Por que ontem, enquanto eu não sabia,
não deixei a vida!..
Porém hoje, mesmo morto,
levantar-me-ei da tumba
para castigar os lyakhy. Coração meu!
Oksana! Oksana!
Onde estás agora?"
Calou-se, ficou triste,
seguiu sem urgência.
Pobre-diabo oprimido ---
não pode vencer o enfado.
Alcançou os seus, quando
já deixavam para trás
o vilarejo de Borovykiv.
Korchma queima com suas adegas,
nem sinal de Leiba --- como se sumisse.
Um sorriso de Yarema
--- triste e cansado. Recordou:
"Foi aqui, foi ante-ontem ---
me verguei perante o Leiba.
Hoje, é diferente..." A tristeza
tomou o peito. Por que tanta desventura!
Os haidamaky sobre os barrancos
--- por entre os desfiladerios,
da estrada se desviaram.
Juntaram-se ao menino-homem,
que no caminho encontraram
--- vestido em trapos,
calçando alpargatas;
sobre os ombros, uma sacola.
Se apresentaram.
"Olá! Velho mendigo! Espere, um pouco!"
"Não sou um velho, meu Senhorio!
Como estais vendo, eu sou um haidamaka".
"Mas, como estrambótico és tu!"
"De onde és?"
"Sou de Kyrylivka".
"Conheces tu a Budyshch?
e o lago junto ao local?"
"Conheço o lago, ali;
beirando o despenhadeiro, chegareis lá".
"Tens visto hoje alguns lyakhy?"
"Não vi nenhum, em parte alguma;
mas, ontem havia muitos.
As coroas não puderam ser benzidas:
os lyakhy malditos não permitiram.
Por isso eles foram massacrados
--- eu e o meu pai o fizemos,
com o tarani bento;
A mamãe está doente;
senão, ela também tomaria parte".
"Muito bem, menino.
Tome este ducado...
Seja ele de muita valia".
Tomou o ouro, olhou...
"Agradecido fico!"
"Agora rapaziada, a caminho!
Ouvido atento? Sem conversa.
Siga-me, Halaida!
Neste vale há um lago ---
junto ao bosque, no sopé da montanha.
No bosque, há um tesouro!..
Ao chegarmos lá, tudo sitiaremos.
Diga aos rapazes. Poderão estar
os porões sendo vigiados
por alguns nefastos miseráveis".
Chegaram ao local.
Sitiaram o bosque;
espreitaram --- ninguém havia...
"Que o diabo os carregue!
Que peras bonitas!
Derrubem aos montes!
Mais depressa! Mais depressa!
Assim! Assim, rapaziada!"
Os confederados pelo chão rolaram
--- peras todas podres. E, as outras,
derrubaram todas --- deram conta;
acharam os tesouros --- ficaram com tudo.
Revistaram da shliakhta os bolsos...
Levaram para Lysyanka, os cães inimigos
--- para castigos vindouros.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
ksendzy --- Na Polônia, era a designação dos padres católicos romanos
korchma --- Casa onde se vendia bebidas fortes
haidamaka --- É forma singular de haidamaky (que é plural)
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05/13/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Sol nascente; Ucrânia ---
ardia em chamas lentamente e,
a shliakhta trancafiada,
em seus aposentos, desfalecia.
Por todos os vilarejos, enforcamentos;
Corpos pindurados ---
dos magnatas; os comuns da shliakhta
eram todos amontoados.
Pelas ruas, nas encruzilhadas
cães e corvos vorazes
deliciavam-se a contento,
bicando os olhos da shliakhta.
Ninguém proibia nada...
Nem havia para quem ficassem
os cães e as crianças; ---
As mulheres, com os seus cavalos,
se aliaram aos haidamaky.
Assim era o desmando
por toda a Ucrânia!
Mais terrível que o inferno... E, por que?
Por que o povo sofre?
Tal pai, serão assim os filhos, ---
viver apenas e fraternizar-se...
Mas não, não souberam, não quiseram;
era preciso separar-se!
Era preciso ver sangue, sangue de irmãos;
a inveja não permitia que, na sua despensa,
proventos houvesse e, nos seus jardins,
a alegria bailasse a contento! Oh! ... não!..
"Mataremos a nosso irmão!
Queimaremos a sua choupana!" ---
Disseram, e assim o fizeram.
Parece tudo ser um castigo
--- órfãos restaram. E só!..
Cresceram chorando. Adultos se tornaram;
mãos calejadas suas ficaram --- sangue
pelo sangue. Assim se vingaram!
O coração se contrai dolorido,
ao recordar o passado partido:
dos eslavos antigos, os filhos,
o gosto de sangue respiram.
De quem foi a culpa? Não há?
--- Na certa que são
os ksendzy, os jesuitas.
Trafegavam os haidamaky
pelas florestas, pelos bosques.
Eram seguidos pelo Halaida
com as lágrimas nos olhos.
Já passaram a Voronivka,
a Verbivka e adentraram em Olshava.
"Não será de bom alvitre perguntar
se a Oksana ainda existe? Não!
Não farei esta pergunta nunca
para que jamais descubram
por quem tanto o meu ser padece".
A Olshava já ficou distante agora.
A pergunta se refez, de novo:
"É verdade que o tytar foi batido?"
"Sim, meu senhorio. Meu pai disse
que ele foi queimado pelos lyakhy
e a sua filha foi por eles capturada.
Ontem mesmo, o tytar foi sepultado."
Nem todo ouvidos... "Leve, o cavalo ruço!"
E jogou as rédeas.
"Por que ontem, enquanto eu não sabia,
não deixei a vida!..
Porém hoje, mesmo morto,
levantar-me-ei da tumba
para castigar os lyakhy. Coração meu!
Oksana! Oksana!
Onde estás agora?"
Calou-se, ficou triste,
seguiu sem urgência.
Pobre-diabo oprimido ---
não pode vencer o enfado.
Alcançou os seus, quando
já deixavam para trás
o vilarejo de Borovykiv.
Korchma queima com suas adegas,
nem sinal de Leiba --- como se sumisse.
Um sorriso de Yarema
--- triste e cansado. Recordou:
"Foi aqui, foi ante-ontem ---
me verguei perante o Leiba.
Hoje, é diferente..." A tristeza
tomou o peito. Por que tanta desventura!
Os haidamaky sobre os barrancos
--- por entre os desfiladerios,
da estrada se desviaram.
Juntaram-se ao menino-homem,
que no caminho encontraram
--- vestido em trapos,
calçando alpargatas;
sobre os ombros, uma sacola.
Se apresentaram.
"Olá! Velho mendigo! Espere, um pouco!"
"Não sou um velho, meu Senhorio!
Como estais vendo, eu sou um haidamaka".
"Mas, como estrambótico és tu!"
"De onde és?"
"Sou de Kyrylivka".
"Conheces tu a Budyshch?
e o lago junto ao local?"
"Conheço o lago, ali;
beirando o despenhadeiro, chegareis lá".
"Tens visto hoje alguns lyakhy?"
"Não vi nenhum, em parte alguma;
mas, ontem havia muitos.
As coroas não puderam ser benzidas:
os lyakhy malditos não permitiram.
Por isso eles foram massacrados
--- eu e o meu pai o fizemos,
com o tarani bento;
A mamãe está doente;
senão, ela também tomaria parte".
"Muito bem, menino.
Tome este ducado...
Seja ele de muita valia".
Tomou o ouro, olhou...
"Agradecido fico!"
"Agora rapaziada, a caminho!
Ouvido atento? Sem conversa.
Siga-me, Halaida!
Neste vale há um lago ---
junto ao bosque, no sopé da montanha.
No bosque, há um tesouro!..
Ao chegarmos lá, tudo sitiaremos.
Diga aos rapazes. Poderão estar
os porões sendo vigiados
por alguns nefastos miseráveis".
Chegaram ao local.
Sitiaram o bosque;
espreitaram --- ninguém havia...
"Que o diabo os carregue!
Que peras bonitas!
Derrubem aos montes!
Mais depressa! Mais depressa!
Assim! Assim, rapaziada!"
Os confederados pelo chão rolaram
--- peras todas podres. E, as outras,
derrubaram todas --- deram conta;
acharam os tesouros --- ficaram com tudo.
Revistaram da shliakhta os bolsos...
Levaram para Lysyanka, os cães inimigos
--- para castigos vindouros.
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ksendzy --- Na Polônia, era a designação dos padres católicos romanos
korchma --- Casa onde se vendia bebidas fortes
haidamaka --- É forma singular de haidamaky (que é plural)
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05/13/2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Haidamaky --- Banquete Vermelho
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Todos os sinos repicaram
por toda a nossa Ucrânia;
Reverberaram os haidamaky:
"Morre a shlyakhta!? Morre!..
--- Morre a shlyakhta!
Festejemos ---
até que as nuvens se inflamem!".
A Smilianshchyna pegou fogo
--- as nuvens se coloriram.
Também, a Medvedivka
de vermelho incandesceu os ceus.
A Smila se envolveu em chamas,
enquanto a Smilianshchyna,
em rio de sangue se transformou!
Queima Korsun, queima Kanivo,
queimam também Cherkassy e Chyhyryn.
Chorny Shlyakh arde em chamas
--- o sangue corre como um rio...
Até a Volyniya chegou.
Gonta festeja em Polisya;
por sua vez, em Smilianshchyna
a festa está por conta de Zaliznyak e,
em Cherkasy, a tarefa coube a Yarema
para mostrar a força do benzido tarani...
"Sim, assim! Muito bem, filhos ---
atormentem os inimigos seculares!
Muito bem, rapaziada!" --- lá fora
o Zaliznyak está gritando.
Ao redor, vê-se o inferno; os haidamaky
passeiam por sobre as labaredas.
E, Yarema --- pensando. Triste a visão:
"Muito bem, filhos. Que a mãe deles endoideça!
Atormentem, atormentem, tereis paraiso
ou então, sereis yasaulos.
Divirtam-se, rapazes! Vamos, todos!"
E todos se foram.
Pelos sótãos, pelas despensas e copas,
pelos porões e adegas, e lá onde houvesse
buscar algo de valor --- o que aprouvesse...
"Chega, rapazes, agora!
Cansados --- descansem".
Ruas, bazares e centros
cobertos de corpos,
flutuam em sangue.
"Foi pouco castigo!
Mais uma rodada,
para que não se levantem
as almas malditas".
Reuniram-se os haidamaky
na praça da feira. Vem Yarema
e, depois, Zaliznyak proclama:
"Venha cá, menino! Ouça!
Medo não tenha;
não sou espantalho".
"Medo não tenho!" --- de chapeu na mão,
postou-se, como se diante do amo.
"De onde és tu? Quem és tu?"
"Meu senhor, sou de Olshana".
"De Olshana, lá onde o cães
deram cabo ao tytar profano?"
"Que tytar? Onde?"
"Lá em Olshana;
Dizem que levaram a filha dele.
Poiis que saibas".
"Filha, lá em Olshana?"
"Filha do tytar, lá em Olshana".
"Oksana! Oksana!" --- Yarema
enguliu seco e caiu ao chão...
"Pois então! A questão é...
Pena do menino!
Refresque o garoto, Mykola!"
Animado. "Meu pai! meu irmão!
Por que não sou um centímano?
Deem-me um tarani, deem-me poder
--- tormenta aos lyakhy, tormenta!
Tormenta terrível, para que o inferno
sinta o calor das chamas!"
"Filho, terás o teu tarani
--- a obra santa não espera.
Irás conosco até a Lysyanka
p'ra darmos rijeza aos nossos tarani!"
"Vamos, vamos, sr. otomano
--- meu pai, meu irmão. Meu tudo!
Irei até o fim do mundo...
Voarei, conseguirei
--- arrancarei do próprio inferno, sr. otomano...
Até o fim do mundo, sr....
Até o fim do mundo;
porém, não encontrarei a Oksana!"
"Talvez, possas encontrá-la.
Qual é o teu nome? Não sei ainda".
"Yarema".
"O sobrenome?"
"Não tenho um sobrenome!"
"Serás um bastardo? Não tens sobrenome;
escreva, Mykola, no livro de registros.
Será, a partir de hoje ---
será Pelado, escreva assim mesmo!"
"Não, é feio!"
"Então, será Desgraça?"
"Também, não".
"Espere, um pouco, escreva Halaida".
Assim foi registrado.
"Então, Halaida, vamos ao passeio.
Acharás a tua sorte... Se não a encontrares...
Partamos agora, rapaziada".
Deram um cavalo a Yarema
--- reserva do comboio.
Sorrizo nos lábios, montou o seu baio
--- irrompeu em choro de tanta leveza!
Romperam a fronteira
--- Cherkasy em labaredas...
"Estão todos?"
"Sim, estamos!"
"Haida!"
Estendeu-se,
ao longo da mata
-- beirando o Dnipro,
a tropa cossaca.
Também, ali estava
o cego kobzar Volokh,
em seu cavalo cansado,
de leve mancando.
Aos cossacos,
o seu canto ele cantava:
"Haidamaky, haidamaky,
Zaliznyak está passeando!"
Partiram... Deixaram Cherkasy
--- permaneceu queimando,
uma fogueira só --- só, queimando.
Para o diabo! Nem olhar p'ra ela...
Insultos e risos --- shlyakhta maldita.
Alguns tecem comentários;
outros, do kobzar o canto ouvem...
Lá, à frente, Zaliznyak ouvidos atiça.
Caminha tranquilo, fumando cachimbo,
nem uma palavra com ninguém partilha.
A seguir seus passos, está o Yarema.
Verdes borsques, arvoredo negrume e,
Dnipro gigante; mais além, montes altos
debaixo do ceu estrelado
--- tudo é silêncio e muita gente,
com as suas dores, sofrendo ---
Perdeu-se tudo..., tudo!
Nada mais resta. Nada se vê.
Nada se ouve. Parece que tudo está morto.
Só e triste, ele não chora.
Não, não chora: uma serpente feroz,
com suas lágrimas se embebeda e
estrangula-lhe a alma, despedaçando
o seu sofrido coração.
"Eh!, lágrimas, lágrimas minhas!
Podeis lavar a tristeza;
por que, então, não o fazeis?..
Triste! Sinto-me nauseabundo!
Nem o mar azul,
nem o Dnipro comportariam
toda a desgraça e a tristeza minhas.
Ou, terei de perder a alma minha?
Oksana! Oksana!
Onde estás tu? Olhes para mim
--- és tu a única vida minha:
tenhas compaixão de Yarema.
Onde estás tu?
Talvez, ela esteja definhando, ou
talvez, está maldizendo a sorte
--- está definhando, está maldizendo;
ou, agrilhoada pelo senhorio,
está morrendo.
Talvez, tenha lembranças de Yarema,
ainda se recorde de Olshana.
E, clame ainda:
"Coração meu, abraçe a tua Oksana!
Fiquemos abraçados para sempre!
Que os lyakhy nos maltratem,
assim não sentiremos!.."
Sopram os ventos
--- vindos do mar, passando pelo Lyman,
vergando os álamos e os choupos, ---
Toda menina se volve sempre
para o lado em que estiver se debruçando
o infortúnio da desgraça e de má sorte.
Se aflige, se entristece; depois,
esquece tudo... Depois, pode tornar-se
uma senhora de respeito;
o senhorio lyakh... Coitado! Não tem jeito!
Que me lancem ao inferno,
dêm-me um banho de sofrimento,
os trovões que me ensurdeçam;
mas, não permitam que eu veja
a minha Oksana ser de outro ---
uma senhora de um lyakhy maldito.
Recebo os castigos,
mas não desta sorte.
Oksana! Oksana!
Onde tu te encontras?"
E, as lágrimas cairam;
mas, de onde elas vieram?
Zaliznyak ordena:
"Todos, para o bosque!
Está amanhecendo...
Os cavalos, já cansados,
devem ser alimentados", ---
e silentes, os haidamaky
na floresta se esconderam.
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Chorny Shlyakh --- Antiga via mercantil, usada pelos tártaros da Criméia para
atacar as terras ucranianas e a Polônia, nos séc. XVI - XVII.
Começava no poto de ligação da Criméia com o continente e
seguia para o norte, para as bacias de Ingul, Ingultz e Tyasmin,
depois voltava-se para o ocidente --- subdividindo-se em três
outros caminhos.
yasaulos --- (deriva do turco) Chemefe dos kozaky, equivalente a rotmistrz na
cavalaria polonesa, ou a capitão na infantaria russa.
Pelado --- No original, "holyj" que significa "nú", ou "pelado"
Desgraça --- No original, "bida" que significa "desgraça"
Halaida --- Significa "abandonado", "sem familiares"
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05/08/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Todos os sinos repicaram
por toda a nossa Ucrânia;
Reverberaram os haidamaky:
"Morre a shlyakhta!? Morre!..
--- Morre a shlyakhta!
Festejemos ---
até que as nuvens se inflamem!".
A Smilianshchyna pegou fogo
--- as nuvens se coloriram.
Também, a Medvedivka
de vermelho incandesceu os ceus.
A Smila se envolveu em chamas,
enquanto a Smilianshchyna,
em rio de sangue se transformou!
Queima Korsun, queima Kanivo,
queimam também Cherkassy e Chyhyryn.
Chorny Shlyakh arde em chamas
--- o sangue corre como um rio...
Até a Volyniya chegou.
Gonta festeja em Polisya;
por sua vez, em Smilianshchyna
a festa está por conta de Zaliznyak e,
em Cherkasy, a tarefa coube a Yarema
para mostrar a força do benzido tarani...
"Sim, assim! Muito bem, filhos ---
atormentem os inimigos seculares!
Muito bem, rapaziada!" --- lá fora
o Zaliznyak está gritando.
Ao redor, vê-se o inferno; os haidamaky
passeiam por sobre as labaredas.
E, Yarema --- pensando. Triste a visão:
"Muito bem, filhos. Que a mãe deles endoideça!
Atormentem, atormentem, tereis paraiso
ou então, sereis yasaulos.
Divirtam-se, rapazes! Vamos, todos!"
E todos se foram.
Pelos sótãos, pelas despensas e copas,
pelos porões e adegas, e lá onde houvesse
buscar algo de valor --- o que aprouvesse...
"Chega, rapazes, agora!
Cansados --- descansem".
Ruas, bazares e centros
cobertos de corpos,
flutuam em sangue.
"Foi pouco castigo!
Mais uma rodada,
para que não se levantem
as almas malditas".
Reuniram-se os haidamaky
na praça da feira. Vem Yarema
e, depois, Zaliznyak proclama:
"Venha cá, menino! Ouça!
Medo não tenha;
não sou espantalho".
"Medo não tenho!" --- de chapeu na mão,
postou-se, como se diante do amo.
"De onde és tu? Quem és tu?"
"Meu senhor, sou de Olshana".
"De Olshana, lá onde o cães
deram cabo ao tytar profano?"
"Que tytar? Onde?"
"Lá em Olshana;
Dizem que levaram a filha dele.
Poiis que saibas".
"Filha, lá em Olshana?"
"Filha do tytar, lá em Olshana".
"Oksana! Oksana!" --- Yarema
enguliu seco e caiu ao chão...
"Pois então! A questão é...
Pena do menino!
Refresque o garoto, Mykola!"
Animado. "Meu pai! meu irmão!
Por que não sou um centímano?
Deem-me um tarani, deem-me poder
--- tormenta aos lyakhy, tormenta!
Tormenta terrível, para que o inferno
sinta o calor das chamas!"
"Filho, terás o teu tarani
--- a obra santa não espera.
Irás conosco até a Lysyanka
p'ra darmos rijeza aos nossos tarani!"
"Vamos, vamos, sr. otomano
--- meu pai, meu irmão. Meu tudo!
Irei até o fim do mundo...
Voarei, conseguirei
--- arrancarei do próprio inferno, sr. otomano...
Até o fim do mundo, sr....
Até o fim do mundo;
porém, não encontrarei a Oksana!"
"Talvez, possas encontrá-la.
Qual é o teu nome? Não sei ainda".
"Yarema".
"O sobrenome?"
"Não tenho um sobrenome!"
"Serás um bastardo? Não tens sobrenome;
escreva, Mykola, no livro de registros.
Será, a partir de hoje ---
será Pelado, escreva assim mesmo!"
"Não, é feio!"
"Então, será Desgraça?"
"Também, não".
"Espere, um pouco, escreva Halaida".
Assim foi registrado.
"Então, Halaida, vamos ao passeio.
Acharás a tua sorte... Se não a encontrares...
Partamos agora, rapaziada".
Deram um cavalo a Yarema
--- reserva do comboio.
Sorrizo nos lábios, montou o seu baio
--- irrompeu em choro de tanta leveza!
Romperam a fronteira
--- Cherkasy em labaredas...
"Estão todos?"
"Sim, estamos!"
"Haida!"
Estendeu-se,
ao longo da mata
-- beirando o Dnipro,
a tropa cossaca.
Também, ali estava
o cego kobzar Volokh,
em seu cavalo cansado,
de leve mancando.
Aos cossacos,
o seu canto ele cantava:
"Haidamaky, haidamaky,
Zaliznyak está passeando!"
Partiram... Deixaram Cherkasy
--- permaneceu queimando,
uma fogueira só --- só, queimando.
Para o diabo! Nem olhar p'ra ela...
Insultos e risos --- shlyakhta maldita.
Alguns tecem comentários;
outros, do kobzar o canto ouvem...
Lá, à frente, Zaliznyak ouvidos atiça.
Caminha tranquilo, fumando cachimbo,
nem uma palavra com ninguém partilha.
A seguir seus passos, está o Yarema.
Verdes borsques, arvoredo negrume e,
Dnipro gigante; mais além, montes altos
debaixo do ceu estrelado
--- tudo é silêncio e muita gente,
com as suas dores, sofrendo ---
Perdeu-se tudo..., tudo!
Nada mais resta. Nada se vê.
Nada se ouve. Parece que tudo está morto.
Só e triste, ele não chora.
Não, não chora: uma serpente feroz,
com suas lágrimas se embebeda e
estrangula-lhe a alma, despedaçando
o seu sofrido coração.
"Eh!, lágrimas, lágrimas minhas!
Podeis lavar a tristeza;
por que, então, não o fazeis?..
Triste! Sinto-me nauseabundo!
Nem o mar azul,
nem o Dnipro comportariam
toda a desgraça e a tristeza minhas.
Ou, terei de perder a alma minha?
Oksana! Oksana!
Onde estás tu? Olhes para mim
--- és tu a única vida minha:
tenhas compaixão de Yarema.
Onde estás tu?
Talvez, ela esteja definhando, ou
talvez, está maldizendo a sorte
--- está definhando, está maldizendo;
ou, agrilhoada pelo senhorio,
está morrendo.
Talvez, tenha lembranças de Yarema,
ainda se recorde de Olshana.
E, clame ainda:
"Coração meu, abraçe a tua Oksana!
Fiquemos abraçados para sempre!
Que os lyakhy nos maltratem,
assim não sentiremos!.."
Sopram os ventos
--- vindos do mar, passando pelo Lyman,
vergando os álamos e os choupos, ---
Toda menina se volve sempre
para o lado em que estiver se debruçando
o infortúnio da desgraça e de má sorte.
Se aflige, se entristece; depois,
esquece tudo... Depois, pode tornar-se
uma senhora de respeito;
o senhorio lyakh... Coitado! Não tem jeito!
Que me lancem ao inferno,
dêm-me um banho de sofrimento,
os trovões que me ensurdeçam;
mas, não permitam que eu veja
a minha Oksana ser de outro ---
uma senhora de um lyakhy maldito.
Recebo os castigos,
mas não desta sorte.
Oksana! Oksana!
Onde tu te encontras?"
E, as lágrimas cairam;
mas, de onde elas vieram?
Zaliznyak ordena:
"Todos, para o bosque!
Está amanhecendo...
Os cavalos, já cansados,
devem ser alimentados", ---
e silentes, os haidamaky
na floresta se esconderam.
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Chorny Shlyakh --- Antiga via mercantil, usada pelos tártaros da Criméia para
atacar as terras ucranianas e a Polônia, nos séc. XVI - XVII.
Começava no poto de ligação da Criméia com o continente e
seguia para o norte, para as bacias de Ingul, Ingultz e Tyasmin,
depois voltava-se para o ocidente --- subdividindo-se em três
outros caminhos.
yasaulos --- (deriva do turco) Chemefe dos kozaky, equivalente a rotmistrz na
cavalaria polonesa, ou a capitão na infantaria russa.
Pelado --- No original, "holyj" que significa "nú", ou "pelado"
Desgraça --- No original, "bida" que significa "desgraça"
Halaida --- Significa "abandonado", "sem familiares"
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05/08/2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Haidamaky --- Os Terceiros Galos
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
De novo, a Ucrânia foi escravizada
--- malditos lyakhy. Mais uma vez.
Mais uma vez entristeceram-se: a
Ucrânia toda, com ela o Chyhyryn.
Mais uma vez passou-se Makovia
--- o grande dia festivo da Ucrânia.
Também, passou toda a nobreza ---
os vendilhões profanos e desumanos.
Se embeberam de sangue humano;
mas, em taças de vinho se afogaram.
Baniam os cismáticos. Crucificavam.
Odiavam!.. Nada mais podiam tomar.
-- Os haidamaky, esperavam calmos,
até que os ladrões fossem sonhar...
Deitaram-se os inimigos. Não sabiam,
que outros dias não mais veriam. Não!
Adormeceram para sempre os lyakhy.
Contavam dinheiro ainda, os traidores.
Ninguém do povo os conhecia. Agora,
o seu ouro as suas cabeças encobria.
Todos dormiram para sempre...
Pois, que tenham um sono eterno leve!
Neste instante, a lua navegava tranquilo.
Os ceus, as estrelas, a terra, os mares,
refletiam a luz do luar. As gentes agiam
de tal modo, que Deus não podia ignorar.
A face prateada da lua, espargia sorrisos
sobre as estepes da nossa terra Ucrânia;
iluminando ... e, talvez tenha visto a órfã:
a pobre Oksana --- lá de Olshana. Será?
Pode estar ela submissa, gemente de dor.
Yarema não sabe? Não sabe, nem ouve?..
Saberemos depois. Agora, ouçamos esta.
Tocarei, cantando outra
--- não é o cantar de mulheres,
é a dança dos cossacos que vai ecoar.
Eu canto a desgraça do país cossaco!..
Ouçam e aprendam --- cantem aos filhos;
que os filhos escutem, cantem aos netos
de como os cossacos baniram os lyakhy,
porque não souberam honrados governar.
Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Muitos anos se passaram,
té que os rios todos secaram.
As campinas ainda verdejam;
sobre elas, espalhados,
os grandes túmulos pretejam
Pouco importa que são altos;
ninguém os conhece!..
--- São kurhany!
Azuis como nuvens densas
--- caidas restaram,
após as tempestades
que um dia passaram.
Ninguém chora
por seus ocupantes
--- ninguém se lembra deles.
Somente uma brisa leve,
sobre a lájea se estende;
somente a orvalhada
a sua lágrima enchuga
no floral da tumba.
Ao calor do sol,
tudo se transforma
--- nem orvalho, nem a brisa
deixam restos. Viram sombra.
E os netos?
Não são coisas deles
--- são escravos de senhores.
Embora que muitos,
mas ninguém conhece
quem era o Honta e
onde lhe fazer uma prece.
Em que tumba
Zaliznyak foi sepultado?
É um triste pesadelo!
Verdugo tomou a conta
de um povo inteiro ---
marasmo invadiu as mentes:
ninguém mais se lembra
dos bravos cossacos.
Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Dias e noites eram de gritos e
de troadas de canhões --
a terra toda estremecia...
Tristeza vem à memória,
enquanto o coração sorri.
Iluminada lua minha! Tu,
que lá no alto estás pindurada,
esconda-te por trás dos montes
--- não queremos mais o teu brilho...
Veja o sangue derramado nas águas
dos rios Ros e Alta e, do rio Sena.
Um vasto mar de sangue... Por que?
E agora! Faremos o que!?
--- Vamos esconder-nos
por trás dos montes,
para não termos de chorar,
quando a velhice nos abraçar!
Nos confins da abóbada celeste
brilha a lua solitária; junto às margens
do Dnieper largo, vagueia o cossaco --
poderá estar saindo de uma noitada.
Os seus passos lentos dizem
que está muito cansado... --- Poderia
estar levando o fardo de ser despresado.
Só no mundo e é pobre.
Como, alguém assim, seria amado?
Disse ela que o amava
--- pouco importava que andasse
todo remendado. O amor era velado.
Esperasse mais um pouco,
que a sorte haverá de ter chegado...
Porém, o coração chora ---
pressentindo algo doloroso;
poderia ser o que?
Sem resposta, por amor implora!
Passou a desgraça e todos silenciaram.
Parece que partiram para outras plagas.
--- Nem sombra de si deixaram.
Os cães não mais latem,
os galos não cantam;
somente, por trás dos montes,
de alguns lobos, os uivos se ouvem.
Pouco importam dos lobos os uivos.
São os passos vagarosos do nosso Yarema!
--- Seu destino não é a Oksana em Olshava.
Não é este o dilema!
O Yarema se dirige até a Cherkassy ---
quer falar com os infieis lyakhy.
Os terceiros galos agora cantaram...
As margnes do Dnieper largo,
aos olhos do Yarema, se magnificaram.
"Ai! Dnipro, meu Dnipro largo e poderoso!
Muito sangue cossaco tu já levaste para o mar
--- levarás mais ainda, fiel amigo!
Avermelhaste as azuis águas;
porém, não te saciaste...
Mas esta noite serás embriagado.
Esta noite: um infernal dia santo,
por toda a Ucrânia, ressoará.
Muito, muito, mas muito sangue
--- um sangue da nobreza lyakhy
pelas estepes verdes correrrá.
Ressussitarão os kozaky; também,
os hetmany, em seus dourados zhupany.
"Não haverá mais taverneiro,
nem haverá nenhum lyakhy;
--- nas campinas das estepes
apenas o brilho da bulava se verá!"
Oh! meu Deus... Assim será?
Andava, pensando assim, o mal vestido Yarema,
segurando um tarani bento em suas mãos.
O Dnipro fingiu estar ouvindo o seu pensamento e
levantou vagas enormes de ondas azuis,
tangendo, com chibatas de juncos, as margens
cobertas de salgueiros... E, não mais parou!
Os trovões se enfureceram,
relâmpagos se incendiaram.
De ponta a ponta, as nuvnes se rasgaram.
Não notaram que o Yarema
de tão pensativo, deles nem se apercebia
--- só pensava na sua Oksana. Ela sofria?
"Está longe a minha querida.
Não a vejo... longe dela.
--- Ela de mim lembra?..
Talvez, nunca a veja!"
Lá ao longe... Lá daquele vale,
ouve-se o canto dos galos --- ku-ku-ri-ku!
"E Cherkassy!.. Deus querido!
Que ainda eu chegue a tempo!"
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Cherkassy --- Cidade às margem do Dnieper (nome antigo, hoje: Dnipro)
zhupany --- Vestimenta tipo casaco longo
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
04/30/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
De novo, a Ucrânia foi escravizada
--- malditos lyakhy. Mais uma vez.
Mais uma vez entristeceram-se: a
Ucrânia toda, com ela o Chyhyryn.
Mais uma vez passou-se Makovia
--- o grande dia festivo da Ucrânia.
Também, passou toda a nobreza ---
os vendilhões profanos e desumanos.
Se embeberam de sangue humano;
mas, em taças de vinho se afogaram.
Baniam os cismáticos. Crucificavam.
Odiavam!.. Nada mais podiam tomar.
-- Os haidamaky, esperavam calmos,
até que os ladrões fossem sonhar...
Deitaram-se os inimigos. Não sabiam,
que outros dias não mais veriam. Não!
Adormeceram para sempre os lyakhy.
Contavam dinheiro ainda, os traidores.
Ninguém do povo os conhecia. Agora,
o seu ouro as suas cabeças encobria.
Todos dormiram para sempre...
Pois, que tenham um sono eterno leve!
Neste instante, a lua navegava tranquilo.
Os ceus, as estrelas, a terra, os mares,
refletiam a luz do luar. As gentes agiam
de tal modo, que Deus não podia ignorar.
A face prateada da lua, espargia sorrisos
sobre as estepes da nossa terra Ucrânia;
iluminando ... e, talvez tenha visto a órfã:
a pobre Oksana --- lá de Olshana. Será?
Pode estar ela submissa, gemente de dor.
Yarema não sabe? Não sabe, nem ouve?..
Saberemos depois. Agora, ouçamos esta.
Tocarei, cantando outra
--- não é o cantar de mulheres,
é a dança dos cossacos que vai ecoar.
Eu canto a desgraça do país cossaco!..
Ouçam e aprendam --- cantem aos filhos;
que os filhos escutem, cantem aos netos
de como os cossacos baniram os lyakhy,
porque não souberam honrados governar.
Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Muitos anos se passaram,
té que os rios todos secaram.
As campinas ainda verdejam;
sobre elas, espalhados,
os grandes túmulos pretejam
Pouco importa que são altos;
ninguém os conhece!..
--- São kurhany!
Azuis como nuvens densas
--- caidas restaram,
após as tempestades
que um dia passaram.
Ninguém chora
por seus ocupantes
--- ninguém se lembra deles.
Somente uma brisa leve,
sobre a lájea se estende;
somente a orvalhada
a sua lágrima enchuga
no floral da tumba.
Ao calor do sol,
tudo se transforma
--- nem orvalho, nem a brisa
deixam restos. Viram sombra.
E os netos?
Não são coisas deles
--- são escravos de senhores.
Embora que muitos,
mas ninguém conhece
quem era o Honta e
onde lhe fazer uma prece.
Em que tumba
Zaliznyak foi sepultado?
É um triste pesadelo!
Verdugo tomou a conta
de um povo inteiro ---
marasmo invadiu as mentes:
ninguém mais se lembra
dos bravos cossacos.
Murmurava a Ucrânia,
lastimando-se murmurava
--- muito tempo se deplorava.
Pelos séculos a fio
as campinas das estepes,
com o sangue de seus filhos
--- como rios, irrigava.
Dias e noites eram de gritos e
de troadas de canhões --
a terra toda estremecia...
Tristeza vem à memória,
enquanto o coração sorri.
Iluminada lua minha! Tu,
que lá no alto estás pindurada,
esconda-te por trás dos montes
--- não queremos mais o teu brilho...
Veja o sangue derramado nas águas
dos rios Ros e Alta e, do rio Sena.
Um vasto mar de sangue... Por que?
E agora! Faremos o que!?
--- Vamos esconder-nos
por trás dos montes,
para não termos de chorar,
quando a velhice nos abraçar!
Nos confins da abóbada celeste
brilha a lua solitária; junto às margens
do Dnieper largo, vagueia o cossaco --
poderá estar saindo de uma noitada.
Os seus passos lentos dizem
que está muito cansado... --- Poderia
estar levando o fardo de ser despresado.
Só no mundo e é pobre.
Como, alguém assim, seria amado?
Disse ela que o amava
--- pouco importava que andasse
todo remendado. O amor era velado.
Esperasse mais um pouco,
que a sorte haverá de ter chegado...
Porém, o coração chora ---
pressentindo algo doloroso;
poderia ser o que?
Sem resposta, por amor implora!
Passou a desgraça e todos silenciaram.
Parece que partiram para outras plagas.
--- Nem sombra de si deixaram.
Os cães não mais latem,
os galos não cantam;
somente, por trás dos montes,
de alguns lobos, os uivos se ouvem.
Pouco importam dos lobos os uivos.
São os passos vagarosos do nosso Yarema!
--- Seu destino não é a Oksana em Olshava.
Não é este o dilema!
O Yarema se dirige até a Cherkassy ---
quer falar com os infieis lyakhy.
Os terceiros galos agora cantaram...
As margnes do Dnieper largo,
aos olhos do Yarema, se magnificaram.
"Ai! Dnipro, meu Dnipro largo e poderoso!
Muito sangue cossaco tu já levaste para o mar
--- levarás mais ainda, fiel amigo!
Avermelhaste as azuis águas;
porém, não te saciaste...
Mas esta noite serás embriagado.
Esta noite: um infernal dia santo,
por toda a Ucrânia, ressoará.
Muito, muito, mas muito sangue
--- um sangue da nobreza lyakhy
pelas estepes verdes correrrá.
Ressussitarão os kozaky; também,
os hetmany, em seus dourados zhupany.
"Não haverá mais taverneiro,
nem haverá nenhum lyakhy;
--- nas campinas das estepes
apenas o brilho da bulava se verá!"
Oh! meu Deus... Assim será?
Andava, pensando assim, o mal vestido Yarema,
segurando um tarani bento em suas mãos.
O Dnipro fingiu estar ouvindo o seu pensamento e
levantou vagas enormes de ondas azuis,
tangendo, com chibatas de juncos, as margens
cobertas de salgueiros... E, não mais parou!
Os trovões se enfureceram,
relâmpagos se incendiaram.
De ponta a ponta, as nuvnes se rasgaram.
Não notaram que o Yarema
de tão pensativo, deles nem se apercebia
--- só pensava na sua Oksana. Ela sofria?
"Está longe a minha querida.
Não a vejo... longe dela.
--- Ela de mim lembra?..
Talvez, nunca a veja!"
Lá ao longe... Lá daquele vale,
ouve-se o canto dos galos --- ku-ku-ri-ku!
"E Cherkassy!.. Deus querido!
Que ainda eu chegue a tempo!"
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Cherkassy --- Cidade às margem do Dnieper (nome antigo, hoje: Dnipro)
zhupany --- Vestimenta tipo casaco longo
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04/30/2009
Haidamaky --- Festividades em Chyhyryn
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Senhores, nossos hetmany! Que tal se vos levantasseis.
Que tal se vos levantasseis para verdes aquela Chyhyryn
que vós construistes --- na qual festejos celebrastes!
Terieis chorado tanto... Não terieis reconhecido,
nem um puco, das glórias dos kozaky, nas ruinas
que apenas restaram dela.
Aqueles espaços, parecia um mar gigante vermelho,
ocupados pelos exércitos, diante de seus bunchuky
--- em tempos idos. Parecia tudo em brasas queimar.
E, quando o todo poderoso, em seu cavalo murzelo,
a sua bulava menear --- o mar se põe a flamejar...
Do mar as águas fervem e se esparramam
pelas estepes e pelas encostas ---
a desgraça não sobrevive diante delas.
E os kozaky...
O que dizer-se há de? Tudo passado;
e, tudo aquilo o que passou,
não se recorda, irmãos-senhores,
para que não se saiba nada dele...
Mas, que proveito haveria, se o recordardes?..
Tereis lembranças tristes e chorareis. Tão só!
Porém, valeria a pena darmos um olhada na Chyhyryn
--- antiga cidade sede dos cossacos.
Lá dos bosques, por entre as brumas,
a lua prateada se apresenta ---
vez por outra, avermelhada se mostra,
de face redonda parece em brasa; não
apenas brilha --- como que sabendo
que a sua luz, ao mundo todo,
pouco ou nada representa:
Que as labaredas dos incêndios
iluminarão e aquecerão
as terras vastas da Ucrânia.
Já entardecia... Em Chyhyryn
silenciava tudo --- parecia um ataúde.
Melancolia e tristeza (Assim sentia-se,
por toda a Ucrânia, na noite de Makoviya,
quando as facs se afiavam e se benziam).
Não se ouvia o povo: a praça toda vazia,
apenas morcegos se divertiam; e,
nos pastos das estepes, corujas chirriavam.
Mas onde está o povo? Junto ao Tyasmyn
--- numa densa floresta.
Reunidos: velhos, crianças, ricos e pobres;
aguardam o dia de grandes festejos.
Numa densa floresta, no verdejante carvalhal,
com os seus cavalos amarrados pastando,
os kozaky selam os seus elegantes murzelos.
E... já estão todos de prontidão.
Para onde irão eles? Consigo a quem levarão?
Vejam só, quem está com eles!
Estenderam-se, pelas brumas do vale,
como se mortos estivessem. Nada se ouve...
Eles são os haidamaky.
Ao lamento da Ucrânia, os corvos se reuniram;
levarão para os lyakhy o castigo ---
uma vingança pelo sangue que derramaram e,
pelos incêndios que promoveram.
Receberão em troca --- dos haidamaky,
o nobres lyakhy, chamas ardentes do inferno.
--- Jamais se brinca com os kozaky!
Na encosta, de uma colina de carvalhos,
estacionavam carroças cheias de tarani.
Disseram:
"... era um presente da bondosa senhora "
Sabia ela o que presenteava ---
nada pois a reclamar.
Que ela continue a governar;
não se injurie, antes de ouvir!
Entre as carroças, não espaço onde parar:
parece até de pásaros um bando, vindos
lá de Smilyanshchyna e lá do Chyhyryn.
Eram cossacos de toda ordem
--- simples soldados, starshina;
tratar de assunto singular se reuniram...
Todos de túnicas pretas, como se fossem um
--- eram os maiorais dos senhores kozaky.
Confabulavam, andando de um lado ao outro...
Vez outra, apontavam para o Chyhyryn.
Depois, um a um:
Starshyna Um:
O Velho Cabeçudo algo está tramando.
Starshyna Dois:
Cabeça inteligente, fica no seu vilarejo, parecendo nada saber; mas,
quando percebes --- Holovatyi está em todo lugar. "Quando sozinho
não consigo dominar, --- diz, --- ao filho repasso".
Starshyna Três:
O filho também é um mestre! Ontem eu encontrei-me com Zaliznyak.
Contou-me ele a seu respeito, que é dele só! "Diz que um dia será um
Koshovyi; talvez, até possa ser um Hetman, caso ..."
Starshyna Dois:
E para que Gonta? e Zaliznyak? Para o Gonta, pessoalmente..." ela escreveu:
"Quando, --- dizendo..."
Starshyna Um:
Silêncio, por favor; parece que estão telefonando!
Starshyna Dois:
Não é não; é o povo que está alvoroçando.
Starshyna Um:
Estão se alvoroçando, até que os lyakhy ouçam.
Oh! Cabeças velhas e inteligentes: quanta imaginação; maquinam tanto até que conseguem
fazer da relha uma sovela. Quando se pode ter um saco, não se pede a sacola. Comprastes armorácia, então deveis come-lá; que chorem os nossos olhos, embora tenham de sair para fora das suas órbitas: viram o que compraram; dinheiro não se perde à toa!
Geralmente, temos pensado muito --- mas, não em voz alta, nem em voz baixa; porém, os lyakhy acabam por desconfiar de nós --- eis no que consiste o segredo, em ficarmos a ver navios! Que Conselho é aquele? Por que eles não se comunicam conosco? Como seria possível fazer o povo se calar, para que não se alvoroçasse? Não são dez pesoas apenas; mas, graças a Deus, toda a Smilyanshchyna, quando não toda a Ucrânia. Ouçam! Estão cantando. Deu para ouvir?
Starshyna Três:
É verdade. Alguém está cantando. Vou silenciá-los.
Starshyna Um:
Não, não os silencie. Apenas, que cantem mais baixo.
Starshyna Dois:
Ali, parece que é o Volokh! Não aguentou o velho bobalhão; precisou cantar e pronto!
Starshyna Três:
Mas, o seu canto é inteligente! E sempre uma canção diferente. Acheguemo-nos sorrateiramente, para ouvirmos melhor --- enquanto aguardamos o telefone tocar.
Starshyna Um e Dois:
E, porque não? Vamos!
Starshyna Três:
Muito bem, vamos.
Os dois se aproximaram --- esconderam-se por trás de um sobro. Sob a castanheira
sentado, o cego kobzar cantava; à sua volta, os kozaky zaporozhtsi e os haidamaky.
O kobzar, em tom de melancolia e em surdina cantarolava.
Kobzar:
"Ai! valáquios, valáquios,
de vós poucos restaram;
E vós, moldávios,
agora não sois mais senhores.
Vossos senhorios
aos tártaros se venderam
--- aos sultãos dos turcos.
Estais agrilhoados
--- oprimidos e subjugados!
Não vos entristeçais;
façais uma reza boa,
irmanai-vos conosco
--- nós somos kozaky.
Lembremo-nos juntos de Bohdan,
o velho hetman nosso.
Então, sereis livres
--- senhores de si próprios.
Assim, como nós,
com as vossas tarani bentas,
tendo à frente o pai Maksym
--- com a Sich nossa,
juntos faremos bailar
dos lyakhy a nobreza.
O bailar será tamanho
que o inferno rir-se-á de si.
A terra toda tremerá... E...
o céu, de ponta a ponta, se inflamará...
Que grande baile, este será!"
O Cossaco
Dançaremos! Canta verdade o velho; mas, será?
E se ele não fosse o volokh, que kobzar seria dele!
Kobzar
Realmente, não sou volokh. Há muito tempo estive em Voloshchyna; daí o povo
chamar-me de volokh --- nem sei porque.
O Cossaco
Não importa. Cante mais uma. Talvez alguma sobre o pai Maksym!
O Haidamaky
Não muito alto, para a starshyna não ouça.
O Cossaco
Mas o que tem com isso a starshyna? Se ouvir, escutará; caso tenha com que ouvir.
Vamos lá. Nós temos um só starshyna --- o pai Maksym. Quando este ouvir, então
até nos pagará. Cante nos, o velho de Deus; não ligue para o que ele diz.
O Haidamaky
Mas é assim mesmo, o homem; disto eu sei também. Porém, o negócio é: não assim
os senhores, como o são os subordinados, ou --- enquanto o sol não aparece, o orvalho
carcome os olhos.
O Cossaco
Mentira! Cante, o velho de Deus; qualquer que sabes. Senão, adormeceremos.
Todos juntos
Verdade, adormeceremois. Cante-nos qualquer uma.
Kobzar (cantando)
"Voa águia cinzada
sob a abóbada celeste;
Pelos bosques das estepes
passeia o pai Maksym.
Voa águia cinzada,
atrás dela vão os filhotes;
Pelas campinas passeia o Maksym,
atrás dele vão os rapazes.
São seus filhos, crianças suas, ---
pensa assim em se indagando:
Melhor será beber, ou será matando?
Talvez, dançar --- então começam a
bailar, até que a terra toda trema e,
o riso se estabeleça, sem descanso.
Hidromel, vodka; não de cálice ---
mas, de concha-púcaro se bebe...
O inimigo, de olhos fechados,
do caminho se espaneja.
Assim é o otomano
--- nossa águia cinzada!
É guerreiro, e se diverte,
mas com toda a força ---
A sua morada será sempre
à sombra de um sobro.
Não tem ele nem choupana,
nem jardim, nem lago pequeno...
Estepes abertas e mares azuis
são o seu caminho! Todo ele ---
é o seu ouro e a sua glória.
Estremeçam pois, hostis lyakhy,
cães ferozes e cruentos...
--- Zaliznyak vai ao encontro
e o seguem os haidamaky".
O Cossaco
Isto é o suficiente! Basta: nada há a completar, verdade.
Muito bem cantado! O que se quer, isto pode-se cantar. Obriagdo, obrigado ---
Haidamaky
Temo, parece-me algo não estar claro. O canto dele foi sobre os haidamaky?
O Cossaco
Como tu és besta, na verdade! Não ouviste que o canto dele foi sobre os lyakhy?..
P'ra que estes cães raivosos --- os pagãos, se arrependessem; que o Zaliznyak está
chegando, e que vem seguido pelos haidamaky. Que os lyakhy serão exterminados...
Haidamaky
Serão enforcados e torturados! Isto é bom..., por Deus, muito bom! É assim mesmo!
Pagaria até uma moeda, se não a tivesse gasto em bebida ontem! Pena! Pois então que a velha tricoteie, haverá mais carne --- Debita na conta, por gentileza, amanhã darei o troco.
Cante mais uma sobre os haidamaky.
Kobzar
Não me achego ao dinheiro. Quero apenas que me ouçam, enquanto não me tornei rouco.
Se enrouqueço --- um cálice de água benta, um segundo e, depois, aos meus cantos me arremeto. Ouçam, do começo:
"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas;
seguros, pastavam os cavalos,
todos selados e de prontidão.
Também dormiam as senhoras
com os senhores lyakhy
em seus aposentos
ao lado de bebuns e taverneiros.
Encheram a cara de vodka e,
se ..."
Todos
Pessoal, silêncio! Parce que estão chamando. Ouçam! Mais uma vez... ó!
"Tilintou o telefone, tilintou!"
--- ecoou o som pela floresta.
"Vamos, gente. Rezem todos
--- eu termino o meu canto
já andando, pelo caminho".
Largaram-se à estrada,
só se ouvia o gemer dos sobros.
À mão, o mais simples ---
carregar tudo nas costas.
Apetrechos dos haidamaky
transportar pelas carroças.
Segue atrás, cantando,
o Volokh de novo:
"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas..."
Claudicante, cambaleia,
já sem sentido murmura.
"Cante outra, santo velho!" ---
As carroças já nas costas,
quebradas não andam.
"Está bem, meninos! Esta agora!
Assim, assim! Muito bem, meninos!
Vamos, firmes!.. Corvos altaneiros!
Todos dançando!"
O chão geme --- a terra se contorce.
Os haidamaky, com as carroças,
dançam tanto que a poeira estremece
e o Kobzar toca.
E, ainda cantando:
"Oi! Hop taky tak!
--- o cossaco chama a Handzya:
"Venha Handzya, vou beijar-te.
Vamos Handzya até o padre:
lá, vamos a Deus rezar.
Não há trigo nem um pouco,
podes cozinhar lentilhas".
Casou-se o cossaco, ficou triste ---
nada tem na vida.
Os filhos dormem na sarapueira
--- o cossaco sempre canta:
"Na choupana ty-ny-ny,
na despensa ty-ny-ny;
linda esposa minha ---
se tiver, asse-me uma tenca,
ty-ny-ny, ty-ny-ny!"
"Muito bem! Muito bem!
Mais uma! Mais uma!"
Gritaram os haidamaky.
"Ui! Ai! Eis a graça!
Fermentaram a bebida os lyakhy;
mas, nós vamos embebedar-nos
--- serviremos aos senhores nobres,
desfrutando das suas senhoras...
Oi! Hop taky tak!
O cossaco chama:
"Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!
não tenhas vergonha --- dê-me a tua mão.
Passearemos um pouco juntinhos.
Deixemos que os outros tenham sonhos ingratos
--- juntos cantemos uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!"
"Mais uma vez, mais uma!"
"Ora assim, ora assado;
seja lá como for.
Mas que seja um cossaco,
e que seja o moço jovial ---
que ao menos dentro de casa
tenha-me para o seu festim.
De um velhote eu tenho medo
--- um folgazão, comigo não...
Ah! Se um jovem houvesse,
e que me amasse. Assim..."
"Eh-eh!, seus doidos. Não enraiveçam!
Porque exaltar-se assim! E tu,
velho cão bravo, rezas porque
fizeste asneira com as pagãs!
Para os diabos! Fechem a boca!"
Gritou assim o otomano.
Calaram-se todos.
Até a santa igreja descobriram
--- o diácono cantava lá...
Os popy andavam com os turíbulos.
Silentes, os paroquianos peroração ouviam;
enquanto os popy, por entre as carroças,
aspergiam água benta, com os hissopes.
Seguiam-se-lhes os estandartes
e cantares sacros se ouviam.
Parecia até que era
o Grande Dia da Páscoa Santa
"Rezem, irmãos amados. Rezem! ---
Assim teve o começo a fala dos popy. ---
Ao redor da santa cidade Chyhyryn
uma muralha d'outro mundo se erguerá
--- os umbrais das portas nossas
aqui ninguém --- jamais profanará.
E vós deveis cuidar da nossa Ucrânia:
que ela --- vossa mãe, jamais padeça,
nem desfaleça em mãos estranhas.
Já desde o Konashevych até agora
as labaredas não se apagaram sobre nós
--- morre o povo simples; e os que restam,
descalsos perambulam e lotam as prisões.
Nascem filhos não batizados ---
são filhos dos nossos cossacos.
O que dizer sobre as mulheres!..
As flores vivas dos nossos jardins
--- colhidas pelos lyakhy, amorfanhadas
como o foram as suas mães...
Todos seus sonhos sendo destruidos.
Os seus irmãos também padecem ---
escravos do inimigo todos se tornaram;
não mais se reconhecem --- vergonha,
e mais vergonha é só o que conhecem!
Rezem, meus filhos! Rezem!
Juizo final os lyakhy darão p'ra Ucrânia ---
até que os montes farruscos estremeçam.
Recordem os hetmanes justos:
Onde estão os túmulos deles?
Onde estão os restos do glorioso Bohdan?
Ostrianytsia em que tumba se encontra?
Onde sepulto está o Nalyvaiko? Não há!
Suas cinzas somente, os ventos carregam
--- todos, vivos ou mortos, foram queimados!
Aquele Bohun? Aquele inverno?
Ingul congela como todos os anos ---
Bohun não poderá levantar-se para atulhar-se
de corpos de seus inimigos --- os lyakhy.
Os lyakhy se divertem, enquanto Bohdan dorme!
Tudo se colore de vermelho --- Zhovti Vody e Ros verde.
Korsun velho entristecido:
não tem com quem dividir a sua sorte.
Também, a Yalta chora:
"Triste a vida!
Eu me definho, empalideço...
Por onde andará o Tarás?
Não há nem sinal dele...
Os filhos abandonaram o pai!"
Irmãos, não chorem por nós.
As almas dos justos são fortes
--- são assistidas por arqui-estratega São Miguel.
Ainda não chegou a hora dos castigos
--- dos montes farruscos. Ainda é hora de rezar!"
Todos rezavam.
Rezavam os cossacos de toda a sua alma.
Como crianças se fizeram --- da tristeza se abstiveram.
Pensaram algo... algo novo, o que teria de acontecer
--- as tumbas suas de lenços brancos se cobririam!..
Glória total. Do povo a vontade se fez resplandecer.
Lenços brancos tremulando
--- serão um dia arriados?..
O diácono cantando:
"Que morra o inimigo!
Em mãos os tarani! Benzidos já?"
Os sinos repicaram...
Em uníssono, todos gritaram:
"Benzidos já ficaram!"
O coração até gela de pavor!
Santificados estão os tarani!
A nobreza padece destruida!
Chegou o dia da desforra! ---
As armas brilharam,
como jamais antes,
por toda a Ucrânia.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
Chyhyryn --- Cidade junto ao rio Tyasmin (afluente à direita do Dnipro) nas terra da
Kyivshchyna. Bohdan Khmelnytsky tinha transformado Chyhyryn em
residência dos hetmany
bunchuk --- Bastão de autoridade militar. Deriva do nome truco.
bulava --- Bastão de comando, clava
Makoviya (dia de Makoviya) --- Nome popular do dia das festividades da Igreja (1 de
agosto, no antigo calendário). Neste dia, eram apresentadas e benzidas
as armas (facas) usadas nos combates contra a nobreza polonesa.Tyasmyn
Tyasmyn --- Rio afluente do Dnirpo da margem direita
tarani --- Arma de ataque; feita de madeira resistente com ponta de aço. Era usada para
a demolição de paredes das fortes militares. Os haidamaky acreditavam que
eram um presente da bondosa senhora (Yekateryna II). Junto com estas armas
havia uma "Hramota" (autorização legal --- tipo decreto) para fossem usadas
para a aniquilação da nobreza polaca.
bondosa senhora --- Yekateryna II, Imperatriz da Rússia
Smilyanshchyna --- (Smila) Cidade junto ao rio Tyasmin, nas vizinhanças de Chyhyryn
starshina --- Oficialato militar
Velho Cabeçudo --- No original "Staryi Holovatyi". Era o último juiiz dos exércitos de
Zaporizhzhya. O nome verdadeiro era Pavel Holovatyi.
Gonta --- Ivan Gonta foi sotnik (comandante de sótnya). Foi comandante dos cossacos,
formados de camponeses servos, a serviço dos dos magnatas poloneses da
família dos Pototsky. Foi executado pela shlyakhta polonesa.
sotnya --- Grupamento militar de 100 homens
Volokh --- Era o cego kobzar que acomapnhava os haidamaky. Nome bastante difundido
na Ucrânia no séc. XVII, eram os remanescentes valáquios (descendentes dos
godos-dácios e ancestrais dos atuais moldávios)
Maksym --- (Zaliznyak Maksym) Lider dos cossacos da Ucrânia da margem direita, foi
aprisionado pelo exército tsraista e exilado para a Sibéria.
Voloshchyna --- Pequeno ducado da Moldávia (terras de Volokh)
tenca --- (ou tinca) Peixe comum em vários paises europeus
popy --- padres (pop = padre, sing.)
Konashevych --- Petr Konashevych Sahaidachny foi hetman ucraniano de 1614 a 1624
Ostrianytsia --- Stepan Ostrianytsia foi hetman que comandou a revolta dos kozaky
de 1638
Bohun --- Ivan Bohun, libertado ucraniano do jugo polones
Ingul --- Rio ucraniano na região de Kirovohrad
Zhovti Vody --- Cidade ucraniana, junto ao rio Amarelo (rika Zhovta)
Ros --- Rio afluente da margem direita do Dnipro
Korsun --- Cidade ucraniana, fundada em 1032 por Yaroslav, o Sábio
-------------------------------------------------------------------------------------------------------
04/30/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
Senhores, nossos hetmany! Que tal se vos levantasseis.
Que tal se vos levantasseis para verdes aquela Chyhyryn
que vós construistes --- na qual festejos celebrastes!
Terieis chorado tanto... Não terieis reconhecido,
nem um puco, das glórias dos kozaky, nas ruinas
que apenas restaram dela.
Aqueles espaços, parecia um mar gigante vermelho,
ocupados pelos exércitos, diante de seus bunchuky
--- em tempos idos. Parecia tudo em brasas queimar.
E, quando o todo poderoso, em seu cavalo murzelo,
a sua bulava menear --- o mar se põe a flamejar...
Do mar as águas fervem e se esparramam
pelas estepes e pelas encostas ---
a desgraça não sobrevive diante delas.
E os kozaky...
O que dizer-se há de? Tudo passado;
e, tudo aquilo o que passou,
não se recorda, irmãos-senhores,
para que não se saiba nada dele...
Mas, que proveito haveria, se o recordardes?..
Tereis lembranças tristes e chorareis. Tão só!
Porém, valeria a pena darmos um olhada na Chyhyryn
--- antiga cidade sede dos cossacos.
Lá dos bosques, por entre as brumas,
a lua prateada se apresenta ---
vez por outra, avermelhada se mostra,
de face redonda parece em brasa; não
apenas brilha --- como que sabendo
que a sua luz, ao mundo todo,
pouco ou nada representa:
Que as labaredas dos incêndios
iluminarão e aquecerão
as terras vastas da Ucrânia.
Já entardecia... Em Chyhyryn
silenciava tudo --- parecia um ataúde.
Melancolia e tristeza (Assim sentia-se,
por toda a Ucrânia, na noite de Makoviya,
quando as facs se afiavam e se benziam).
Não se ouvia o povo: a praça toda vazia,
apenas morcegos se divertiam; e,
nos pastos das estepes, corujas chirriavam.
Mas onde está o povo? Junto ao Tyasmyn
--- numa densa floresta.
Reunidos: velhos, crianças, ricos e pobres;
aguardam o dia de grandes festejos.
Numa densa floresta, no verdejante carvalhal,
com os seus cavalos amarrados pastando,
os kozaky selam os seus elegantes murzelos.
E... já estão todos de prontidão.
Para onde irão eles? Consigo a quem levarão?
Vejam só, quem está com eles!
Estenderam-se, pelas brumas do vale,
como se mortos estivessem. Nada se ouve...
Eles são os haidamaky.
Ao lamento da Ucrânia, os corvos se reuniram;
levarão para os lyakhy o castigo ---
uma vingança pelo sangue que derramaram e,
pelos incêndios que promoveram.
Receberão em troca --- dos haidamaky,
o nobres lyakhy, chamas ardentes do inferno.
--- Jamais se brinca com os kozaky!
Na encosta, de uma colina de carvalhos,
estacionavam carroças cheias de tarani.
Disseram:
"... era um presente da bondosa senhora "
Sabia ela o que presenteava ---
nada pois a reclamar.
Que ela continue a governar;
não se injurie, antes de ouvir!
Entre as carroças, não espaço onde parar:
parece até de pásaros um bando, vindos
lá de Smilyanshchyna e lá do Chyhyryn.
Eram cossacos de toda ordem
--- simples soldados, starshina;
tratar de assunto singular se reuniram...
Todos de túnicas pretas, como se fossem um
--- eram os maiorais dos senhores kozaky.
Confabulavam, andando de um lado ao outro...
Vez outra, apontavam para o Chyhyryn.
Depois, um a um:
Starshyna Um:
O Velho Cabeçudo algo está tramando.
Starshyna Dois:
Cabeça inteligente, fica no seu vilarejo, parecendo nada saber; mas,
quando percebes --- Holovatyi está em todo lugar. "Quando sozinho
não consigo dominar, --- diz, --- ao filho repasso".
Starshyna Três:
O filho também é um mestre! Ontem eu encontrei-me com Zaliznyak.
Contou-me ele a seu respeito, que é dele só! "Diz que um dia será um
Koshovyi; talvez, até possa ser um Hetman, caso ..."
Starshyna Dois:
E para que Gonta? e Zaliznyak? Para o Gonta, pessoalmente..." ela escreveu:
"Quando, --- dizendo..."
Starshyna Um:
Silêncio, por favor; parece que estão telefonando!
Starshyna Dois:
Não é não; é o povo que está alvoroçando.
Starshyna Um:
Estão se alvoroçando, até que os lyakhy ouçam.
Oh! Cabeças velhas e inteligentes: quanta imaginação; maquinam tanto até que conseguem
fazer da relha uma sovela. Quando se pode ter um saco, não se pede a sacola. Comprastes armorácia, então deveis come-lá; que chorem os nossos olhos, embora tenham de sair para fora das suas órbitas: viram o que compraram; dinheiro não se perde à toa!
Geralmente, temos pensado muito --- mas, não em voz alta, nem em voz baixa; porém, os lyakhy acabam por desconfiar de nós --- eis no que consiste o segredo, em ficarmos a ver navios! Que Conselho é aquele? Por que eles não se comunicam conosco? Como seria possível fazer o povo se calar, para que não se alvoroçasse? Não são dez pesoas apenas; mas, graças a Deus, toda a Smilyanshchyna, quando não toda a Ucrânia. Ouçam! Estão cantando. Deu para ouvir?
Starshyna Três:
É verdade. Alguém está cantando. Vou silenciá-los.
Starshyna Um:
Não, não os silencie. Apenas, que cantem mais baixo.
Starshyna Dois:
Ali, parece que é o Volokh! Não aguentou o velho bobalhão; precisou cantar e pronto!
Starshyna Três:
Mas, o seu canto é inteligente! E sempre uma canção diferente. Acheguemo-nos sorrateiramente, para ouvirmos melhor --- enquanto aguardamos o telefone tocar.
Starshyna Um e Dois:
E, porque não? Vamos!
Starshyna Três:
Muito bem, vamos.
Os dois se aproximaram --- esconderam-se por trás de um sobro. Sob a castanheira
sentado, o cego kobzar cantava; à sua volta, os kozaky zaporozhtsi e os haidamaky.
O kobzar, em tom de melancolia e em surdina cantarolava.
Kobzar:
"Ai! valáquios, valáquios,
de vós poucos restaram;
E vós, moldávios,
agora não sois mais senhores.
Vossos senhorios
aos tártaros se venderam
--- aos sultãos dos turcos.
Estais agrilhoados
--- oprimidos e subjugados!
Não vos entristeçais;
façais uma reza boa,
irmanai-vos conosco
--- nós somos kozaky.
Lembremo-nos juntos de Bohdan,
o velho hetman nosso.
Então, sereis livres
--- senhores de si próprios.
Assim, como nós,
com as vossas tarani bentas,
tendo à frente o pai Maksym
--- com a Sich nossa,
juntos faremos bailar
dos lyakhy a nobreza.
O bailar será tamanho
que o inferno rir-se-á de si.
A terra toda tremerá... E...
o céu, de ponta a ponta, se inflamará...
Que grande baile, este será!"
O Cossaco
Dançaremos! Canta verdade o velho; mas, será?
E se ele não fosse o volokh, que kobzar seria dele!
Kobzar
Realmente, não sou volokh. Há muito tempo estive em Voloshchyna; daí o povo
chamar-me de volokh --- nem sei porque.
O Cossaco
Não importa. Cante mais uma. Talvez alguma sobre o pai Maksym!
O Haidamaky
Não muito alto, para a starshyna não ouça.
O Cossaco
Mas o que tem com isso a starshyna? Se ouvir, escutará; caso tenha com que ouvir.
Vamos lá. Nós temos um só starshyna --- o pai Maksym. Quando este ouvir, então
até nos pagará. Cante nos, o velho de Deus; não ligue para o que ele diz.
O Haidamaky
Mas é assim mesmo, o homem; disto eu sei também. Porém, o negócio é: não assim
os senhores, como o são os subordinados, ou --- enquanto o sol não aparece, o orvalho
carcome os olhos.
O Cossaco
Mentira! Cante, o velho de Deus; qualquer que sabes. Senão, adormeceremos.
Todos juntos
Verdade, adormeceremois. Cante-nos qualquer uma.
Kobzar (cantando)
"Voa águia cinzada
sob a abóbada celeste;
Pelos bosques das estepes
passeia o pai Maksym.
Voa águia cinzada,
atrás dela vão os filhotes;
Pelas campinas passeia o Maksym,
atrás dele vão os rapazes.
São seus filhos, crianças suas, ---
pensa assim em se indagando:
Melhor será beber, ou será matando?
Talvez, dançar --- então começam a
bailar, até que a terra toda trema e,
o riso se estabeleça, sem descanso.
Hidromel, vodka; não de cálice ---
mas, de concha-púcaro se bebe...
O inimigo, de olhos fechados,
do caminho se espaneja.
Assim é o otomano
--- nossa águia cinzada!
É guerreiro, e se diverte,
mas com toda a força ---
A sua morada será sempre
à sombra de um sobro.
Não tem ele nem choupana,
nem jardim, nem lago pequeno...
Estepes abertas e mares azuis
são o seu caminho! Todo ele ---
é o seu ouro e a sua glória.
Estremeçam pois, hostis lyakhy,
cães ferozes e cruentos...
--- Zaliznyak vai ao encontro
e o seguem os haidamaky".
O Cossaco
Isto é o suficiente! Basta: nada há a completar, verdade.
Muito bem cantado! O que se quer, isto pode-se cantar. Obriagdo, obrigado ---
Haidamaky
Temo, parece-me algo não estar claro. O canto dele foi sobre os haidamaky?
O Cossaco
Como tu és besta, na verdade! Não ouviste que o canto dele foi sobre os lyakhy?..
P'ra que estes cães raivosos --- os pagãos, se arrependessem; que o Zaliznyak está
chegando, e que vem seguido pelos haidamaky. Que os lyakhy serão exterminados...
Haidamaky
Serão enforcados e torturados! Isto é bom..., por Deus, muito bom! É assim mesmo!
Pagaria até uma moeda, se não a tivesse gasto em bebida ontem! Pena! Pois então que a velha tricoteie, haverá mais carne --- Debita na conta, por gentileza, amanhã darei o troco.
Cante mais uma sobre os haidamaky.
Kobzar
Não me achego ao dinheiro. Quero apenas que me ouçam, enquanto não me tornei rouco.
Se enrouqueço --- um cálice de água benta, um segundo e, depois, aos meus cantos me arremeto. Ouçam, do começo:
"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas;
seguros, pastavam os cavalos,
todos selados e de prontidão.
Também dormiam as senhoras
com os senhores lyakhy
em seus aposentos
ao lado de bebuns e taverneiros.
Encheram a cara de vodka e,
se ..."
Todos
Pessoal, silêncio! Parce que estão chamando. Ouçam! Mais uma vez... ó!
"Tilintou o telefone, tilintou!"
--- ecoou o som pela floresta.
"Vamos, gente. Rezem todos
--- eu termino o meu canto
já andando, pelo caminho".
Largaram-se à estrada,
só se ouvia o gemer dos sobros.
À mão, o mais simples ---
carregar tudo nas costas.
Apetrechos dos haidamaky
transportar pelas carroças.
Segue atrás, cantando,
o Volokh de novo:
"Dormiam os haidamaky
nas verdejantes florestas..."
Claudicante, cambaleia,
já sem sentido murmura.
"Cante outra, santo velho!" ---
As carroças já nas costas,
quebradas não andam.
"Está bem, meninos! Esta agora!
Assim, assim! Muito bem, meninos!
Vamos, firmes!.. Corvos altaneiros!
Todos dançando!"
O chão geme --- a terra se contorce.
Os haidamaky, com as carroças,
dançam tanto que a poeira estremece
e o Kobzar toca.
E, ainda cantando:
"Oi! Hop taky tak!
--- o cossaco chama a Handzya:
"Venha Handzya, vou beijar-te.
Vamos Handzya até o padre:
lá, vamos a Deus rezar.
Não há trigo nem um pouco,
podes cozinhar lentilhas".
Casou-se o cossaco, ficou triste ---
nada tem na vida.
Os filhos dormem na sarapueira
--- o cossaco sempre canta:
"Na choupana ty-ny-ny,
na despensa ty-ny-ny;
linda esposa minha ---
se tiver, asse-me uma tenca,
ty-ny-ny, ty-ny-ny!"
"Muito bem! Muito bem!
Mais uma! Mais uma!"
Gritaram os haidamaky.
"Ui! Ai! Eis a graça!
Fermentaram a bebida os lyakhy;
mas, nós vamos embebedar-nos
--- serviremos aos senhores nobres,
desfrutando das suas senhoras...
Oi! Hop taky tak!
O cossaco chama:
"Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!
não tenhas vergonha --- dê-me a tua mão.
Passearemos um pouco juntinhos.
Deixemos que os outros tenham sonhos ingratos
--- juntos cantemos uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Sim! Uma linda canção.
Minha senhora, meu passsarito!
Minha senhora, sorte minha!"
"Mais uma vez, mais uma!"
"Ora assim, ora assado;
seja lá como for.
Mas que seja um cossaco,
e que seja o moço jovial ---
que ao menos dentro de casa
tenha-me para o seu festim.
De um velhote eu tenho medo
--- um folgazão, comigo não...
Ah! Se um jovem houvesse,
e que me amasse. Assim..."
"Eh-eh!, seus doidos. Não enraiveçam!
Porque exaltar-se assim! E tu,
velho cão bravo, rezas porque
fizeste asneira com as pagãs!
Para os diabos! Fechem a boca!"
Gritou assim o otomano.
Calaram-se todos.
Até a santa igreja descobriram
--- o diácono cantava lá...
Os popy andavam com os turíbulos.
Silentes, os paroquianos peroração ouviam;
enquanto os popy, por entre as carroças,
aspergiam água benta, com os hissopes.
Seguiam-se-lhes os estandartes
e cantares sacros se ouviam.
Parecia até que era
o Grande Dia da Páscoa Santa
"Rezem, irmãos amados. Rezem! ---
Assim teve o começo a fala dos popy. ---
Ao redor da santa cidade Chyhyryn
uma muralha d'outro mundo se erguerá
--- os umbrais das portas nossas
aqui ninguém --- jamais profanará.
E vós deveis cuidar da nossa Ucrânia:
que ela --- vossa mãe, jamais padeça,
nem desfaleça em mãos estranhas.
Já desde o Konashevych até agora
as labaredas não se apagaram sobre nós
--- morre o povo simples; e os que restam,
descalsos perambulam e lotam as prisões.
Nascem filhos não batizados ---
são filhos dos nossos cossacos.
O que dizer sobre as mulheres!..
As flores vivas dos nossos jardins
--- colhidas pelos lyakhy, amorfanhadas
como o foram as suas mães...
Todos seus sonhos sendo destruidos.
Os seus irmãos também padecem ---
escravos do inimigo todos se tornaram;
não mais se reconhecem --- vergonha,
e mais vergonha é só o que conhecem!
Rezem, meus filhos! Rezem!
Juizo final os lyakhy darão p'ra Ucrânia ---
até que os montes farruscos estremeçam.
Recordem os hetmanes justos:
Onde estão os túmulos deles?
Onde estão os restos do glorioso Bohdan?
Ostrianytsia em que tumba se encontra?
Onde sepulto está o Nalyvaiko? Não há!
Suas cinzas somente, os ventos carregam
--- todos, vivos ou mortos, foram queimados!
Aquele Bohun? Aquele inverno?
Ingul congela como todos os anos ---
Bohun não poderá levantar-se para atulhar-se
de corpos de seus inimigos --- os lyakhy.
Os lyakhy se divertem, enquanto Bohdan dorme!
Tudo se colore de vermelho --- Zhovti Vody e Ros verde.
Korsun velho entristecido:
não tem com quem dividir a sua sorte.
Também, a Yalta chora:
"Triste a vida!
Eu me definho, empalideço...
Por onde andará o Tarás?
Não há nem sinal dele...
Os filhos abandonaram o pai!"
Irmãos, não chorem por nós.
As almas dos justos são fortes
--- são assistidas por arqui-estratega São Miguel.
Ainda não chegou a hora dos castigos
--- dos montes farruscos. Ainda é hora de rezar!"
Todos rezavam.
Rezavam os cossacos de toda a sua alma.
Como crianças se fizeram --- da tristeza se abstiveram.
Pensaram algo... algo novo, o que teria de acontecer
--- as tumbas suas de lenços brancos se cobririam!..
Glória total. Do povo a vontade se fez resplandecer.
Lenços brancos tremulando
--- serão um dia arriados?..
O diácono cantando:
"Que morra o inimigo!
Em mãos os tarani! Benzidos já?"
Os sinos repicaram...
Em uníssono, todos gritaram:
"Benzidos já ficaram!"
O coração até gela de pavor!
Santificados estão os tarani!
A nobreza padece destruida!
Chegou o dia da desforra! ---
As armas brilharam,
como jamais antes,
por toda a Ucrânia.
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Chyhyryn --- Cidade junto ao rio Tyasmin (afluente à direita do Dnipro) nas terra da
Kyivshchyna. Bohdan Khmelnytsky tinha transformado Chyhyryn em
residência dos hetmany
bunchuk --- Bastão de autoridade militar. Deriva do nome truco.
bulava --- Bastão de comando, clava
Makoviya (dia de Makoviya) --- Nome popular do dia das festividades da Igreja (1 de
agosto, no antigo calendário). Neste dia, eram apresentadas e benzidas
as armas (facas) usadas nos combates contra a nobreza polonesa.Tyasmyn
Tyasmyn --- Rio afluente do Dnirpo da margem direita
tarani --- Arma de ataque; feita de madeira resistente com ponta de aço. Era usada para
a demolição de paredes das fortes militares. Os haidamaky acreditavam que
eram um presente da bondosa senhora (Yekateryna II). Junto com estas armas
havia uma "Hramota" (autorização legal --- tipo decreto) para fossem usadas
para a aniquilação da nobreza polaca.
bondosa senhora --- Yekateryna II, Imperatriz da Rússia
Smilyanshchyna --- (Smila) Cidade junto ao rio Tyasmin, nas vizinhanças de Chyhyryn
starshina --- Oficialato militar
Velho Cabeçudo --- No original "Staryi Holovatyi". Era o último juiiz dos exércitos de
Zaporizhzhya. O nome verdadeiro era Pavel Holovatyi.
Gonta --- Ivan Gonta foi sotnik (comandante de sótnya). Foi comandante dos cossacos,
formados de camponeses servos, a serviço dos dos magnatas poloneses da
família dos Pototsky. Foi executado pela shlyakhta polonesa.
sotnya --- Grupamento militar de 100 homens
Volokh --- Era o cego kobzar que acomapnhava os haidamaky. Nome bastante difundido
na Ucrânia no séc. XVII, eram os remanescentes valáquios (descendentes dos
godos-dácios e ancestrais dos atuais moldávios)
Maksym --- (Zaliznyak Maksym) Lider dos cossacos da Ucrânia da margem direita, foi
aprisionado pelo exército tsraista e exilado para a Sibéria.
Voloshchyna --- Pequeno ducado da Moldávia (terras de Volokh)
tenca --- (ou tinca) Peixe comum em vários paises europeus
popy --- padres (pop = padre, sing.)
Konashevych --- Petr Konashevych Sahaidachny foi hetman ucraniano de 1614 a 1624
Ostrianytsia --- Stepan Ostrianytsia foi hetman que comandou a revolta dos kozaky
de 1638
Bohun --- Ivan Bohun, libertado ucraniano do jugo polones
Ingul --- Rio ucraniano na região de Kirovohrad
Zhovti Vody --- Cidade ucraniana, junto ao rio Amarelo (rika Zhovta)
Ros --- Rio afluente da margem direita do Dnipro
Korsun --- Cidade ucraniana, fundada em 1032 por Yaroslav, o Sábio
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04/30/2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
Haidamaky -- Tytar
Taras H. Shevchenko
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
"Bosque, souto
--- total calmaria;
navega silente a lua,
estão reluzindo as estrelas.
Venha, querida, ---
estou esperando:
ao menos, por uma hora
--- ó, minha namorada!
Apareça, pombinha minha!
Arrulharemos um pouco,
suspiros viveremos...
Esta noite,
para terras distantes,
estarei de partida.
Apareça!.. Ó, minha colibri
--- és tu o meu coração...
Apareça, enquanto
ainda estão pertinhos
os nossos caminhos.
Ciciaremos um pouco...
Ah! Que tristeza
é tudo em mim!..
Yarema assim cantava,
vagando junto ao bosque
--- enquanto esperava a sua Oksana;
mas, ela não chegava...
No ceu, as estrelas reluziam, e
a clara lua prateava.
Salgueiros ouviam os rouxinois,
enquanto apreciavam reflexos seus
nos espelhos do fundo dos poços...
Cada vez mais, sobre os viburnos,
os rouxinois cantavam, pareciam saber
que o cossaco a sua amada esperava.
Yarema, já cansado --- a muito custo,
pelo vale, junto à floresta, perambula:
ao redor, nada escuta e nada vê.
Pensa, apenas:
"Por que serve-me a formosura,
se a sorte não tenho,
nem a felicidade se compraz comigo!
Perco à toa os meus anos jovens.
Sozinho no mundo, sem parentes;
nem tenho um destino --- sou apenas
um talo de erva sequiosa.
Sou um arbusto sem folhas,
que brotou em terra estranha.
Soprarão os ventos, tombarão o talo seco
--- e ninguém de mim se lembrará.
A razão? Ninguém a sabe!.. Talvez,
porque sou um órfão. E, outra não há.
Na verdade, um amor eu tinha:
ela dizia que era minha. Mas verdade,
na verdade foi mentira.
--- Ela não me amava."
E as lágrimas rolaram.
Coitado, chorou!
Secou, com a manga, o rosto:
"Que Deus te proteja. Agora, já vou!
No caminho distante, buscarei a sorte
--- talvez ela esteja depois do Dnipro...
Reclinarei a cabeça, pensando em ti!
E tu, porventura, terás chorado por mim?
Nem verás como um corvo
terá bicado os meus olhos
--- olhos castanhos, acariciados por ti.
Os olhos do cossaco, que um dia beijaste ---
que eram só teus; agora, só meus. Por que?
Pois então me esqueça.
Não mais lembres de mim
--- nem do teu juramento,
que um dia fizeste.
Dê a outro o teu coração.
Sou um simples mortal;
e tu, uma tetarivna.
Se um dia ouvires,
que em campos estranhos repousei
--- faça uma oração breve. Assim,
um descanso tranquilo terei!"
No bordão apoiou a cabeça e,
de novo, chorou. Chorou muito...
Até que um barulho se ouviu: algo crepitou!
Junto ao bosque,
qual um coelho acautelada,
aproxima-se a Oksana.
Esqueceu o choro
--- correu até ela;
os dois se abraçaram.
"Coração!" --- desmaiaram.
Muito tempo assim ficaram. Apenas:
"Coração!" --- de novo, calaram.
"Basta, meu pássaro meigo!"
"Mais um pouco,
mais... mais... ó, meu amado!
Beba a alma minha!.. mais... e mais.
Ai!.. Como estou aflita!"
"Pois descanse, minha estrela!
Tu do ceu caiste!"
Estendeu uma coberta.
Sorridente, como estrela,
ela sentou-se calma --- ele, junto dela.
"Fiquemos juntinhos ---
sintamos o mundo, como se fossemos
debruçados numa janela".
"Coração meu, minha estrela,
onde estiveste luzindo?"
"Atrasei-me hoje:
papai adoentou-se;
fiquei ao lado dele..."
"De mim, nem te lembraste?"
"Quão mesquinho és tu;
Deus que te Perdoe!"
As lágrimas brilharam.
"Não chore, querida. Brincadeira".
"Brincadeira!" --- Sorriu.
Encostou no ombro dele e,
quase, adormeceu.
"Sim, Oksana, estou brincando;
e... tu choras de verdade. Mas,
não chores.Veja os meus olhos.
Amanhã estarei longe.
À noitinha, estarei em Chyhyryn
--- tornando-me um dos haidamaky.
Ficarei rico --- terei ouro e prata,
serei respeitado; terei glórias;
terás roupas e terás sapatos...
Serás uma bela e vaidosa pavoa,
p'ra que eu possa admirar-te
como uma senhora hetman,
até que me leve a morte".
"Pode ser que tu me esqueças!
Sendo rico, viajarás a Kyiv
com os cavalheiros outros;
terás outras amizades ---
esquecerás a tua Oksana!"
"Mais bela que tu, no mundo haveria?"
"Até pode haver... --- Eu não saberia."
"Tu a Deus ofendes, falando assim.
Mais bela que a minha Oksana não há:
nem no ceu, nem cá na terra, e
nem após o azul dos mares, --- nem alhures.
Mais bela que a minha Oksana não há!"
"Estás dizendo o que?
Reflita um pouco: não exageres!"
"Mas é verdade, minha cara!"
A conversa foi-se indo, foi-se indo e,
não terminava... Beijos e abraços e,
mais beijos... --- Juramentos davam.
Depois, Yarema contava
como seria a vida futura.
Unidos p'ra sempre: ouro e sorte teriam.
Mas, o mais importante:
os lyakhy, uma vez por todas,
a Ucrânia livre deixariam.
Que a sorte esteja com eles
e que o Yarema dos combates retorne,
para que, ao lado de Oksana,
os destinos da Ucrânia transforme.
Foi fastioso ouvi-los, meninas!
"Vejam só! Parece verdade ---
Foi entediante!.."
Pois bem,
quando os pais souberem --- desta estória,
que vós agora vós estais lendo,
que pecado não terá sido para a boca cheia!..
Então, depois... que Deus me perdoe,
será muito engraçado! Ainda mais, se vos
contasse que o cossaco de olhos negros,
debaixo da sombra de um salgueiro,
abraçado à querida sua, triste chora.
A Oksana, como pequena pombinha,
arrulha, arrulha... e geme...
--- cobrindo de beijos o seu namorado.
Também chora e, vezes desmaia.
Cabecinha encosta:
"Meu amado, minha vida!
Ó, meu falcãozinho!
Não vá... fique comigo!"
Tanto amor e juramentos,
que o salgueiro se contorce.
Ouvir quereis, meninas!
Não, não conto ---
a conversa deles é muito picante;
tereis sonhado à noite
--- e é ultrajante!..
Que os dois se distanciem, --- se separem
assim como se encontraram: de mansinho,
bonitinhos. Que ninguém os veja. Para que:
as lágrimas da coitadinha ninguém sinta; e,
também, as do seu cossaco.
Pois que assim seja...
Qu o destino os separe agora;
mas, que no futuro,
a sorte possa uni-los de novo.
Veremos. Assim vive o povo...
Brilham luzes nas janelas ---
são do tytar os ricos aposentos.
Algo deve estar acontecendo!..
Visitemos já, para o sabermos.
Cuidado tomemos, p'ra que não nos vejam!
Quisera não ter visto, p'ra que não contasse!
Por causa das gentes, é vergonhoso;
uma dor na alma e no coração...
Vejam só!.. São os confederados.
Gente reunida para as liberdades defender.
Defendem o que? Desgraçados...
Que a mãe deles seja maldita
--- o dia e a hora que os viu nascer!
Vejam o que se passa
nos aposentos do tytar:
Infernais filhos.
As chamas inflamaram a todos
--- labaredas tomaram a conta da mansão.
Num canto, se apoiando na parede,
o velho taverneiro, feito um cachorro uiva;
ao lado dele, os confederados berram:
"Queres viver? Entregue-nos o dinheiro!".
Agora, ele calado; não respode.
Ataram as mãos cansadas dele,
jogaram o seu corpo ao chão --- e, nada,
nem uma palavra só. --- Emudeceu?..
"Talvez a dor não lhe é tanto!
Que tal carvão queimando!
E o betume derretido?
Vamos aspergi-lo! Assim! Está esfriando?
Mais brasa precisamos!..
Alguma coisa deves falar, seu miserável!
O velhaco nem se lamenta!..
Mas que finório teimoso! Esperem um pouco!"
Encheram de brasa a botina...
"Crave-se um prego no sincipúcio!"
Coitado! Não aguentou o santo castigo;
Tombou o sofredor --- não resistiu!
Partiu... Uma alma se perdeu,
sem uma chance, ao menos
de ter-se confessado!..
"Oksna, filha minha! --- um íltimo suspiro e morreu.
Os lyakhy --- paralisados e pensativos,
então, se perguntaram: "Fazer o que, agora?
Senhores do Conselho! Pensaremos algo ---
com ele nada podemos mais fazer!
Podemos queimar o templo!"
--- Um vozerio!
"Que Deus nos perdoe!
Acreditamos todos em Deus!"
Amotinavam-se os lyakhy.
Gritaram: "Quem é?"
Batia à porta a Oksana.
"Mataram o meu pai, mataram!"
Ao chão caiu como uma pedra,
e desmaiou.
Da turba o lider,
sobre os presentes,
acenou a sua mão e,
todos de pronto silenciaram
--- como se cães domesticados fossem.
Abriu-se a porta e a Oksana:
"Yarema, onde estás tu?"
Yarema, muito distante,
trilha caminhos desconhecidos
--- canções cantando
de como o Nalyvaiko
tenha lutado com os lyakhy.
Tombaram os lyakhy;
com eles, tombou a Oksana.
Ouvia-se uivo de cães em Olshana
--- ora latiam, depois silenciavam...
A lua brilhava; as pessoas dormiam.
O tytar, também dormitava...
Não mais levantaria:
adormeceu para sempre.
As luzes que um dia foram acesas,
se apagaram. Se apagaram p'ra sempre.
Parece que o morto suspirou.
Um silêncio triste,
dos aposentos a conta tomou.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
tytar --- Administrador eclesial, responsável pelo templo e pelas coisas relativas ao
suprimento das necessidades eclesiais
tetarivna --- Filha do tytar
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04/21/2009
Tradução de Mykola Szoma
(Shchoma Mykola Opanasovych)
"Bosque, souto
--- total calmaria;
navega silente a lua,
estão reluzindo as estrelas.
Venha, querida, ---
estou esperando:
ao menos, por uma hora
--- ó, minha namorada!
Apareça, pombinha minha!
Arrulharemos um pouco,
suspiros viveremos...
Esta noite,
para terras distantes,
estarei de partida.
Apareça!.. Ó, minha colibri
--- és tu o meu coração...
Apareça, enquanto
ainda estão pertinhos
os nossos caminhos.
Ciciaremos um pouco...
Ah! Que tristeza
é tudo em mim!..
Yarema assim cantava,
vagando junto ao bosque
--- enquanto esperava a sua Oksana;
mas, ela não chegava...
No ceu, as estrelas reluziam, e
a clara lua prateava.
Salgueiros ouviam os rouxinois,
enquanto apreciavam reflexos seus
nos espelhos do fundo dos poços...
Cada vez mais, sobre os viburnos,
os rouxinois cantavam, pareciam saber
que o cossaco a sua amada esperava.
Yarema, já cansado --- a muito custo,
pelo vale, junto à floresta, perambula:
ao redor, nada escuta e nada vê.
Pensa, apenas:
"Por que serve-me a formosura,
se a sorte não tenho,
nem a felicidade se compraz comigo!
Perco à toa os meus anos jovens.
Sozinho no mundo, sem parentes;
nem tenho um destino --- sou apenas
um talo de erva sequiosa.
Sou um arbusto sem folhas,
que brotou em terra estranha.
Soprarão os ventos, tombarão o talo seco
--- e ninguém de mim se lembrará.
A razão? Ninguém a sabe!.. Talvez,
porque sou um órfão. E, outra não há.
Na verdade, um amor eu tinha:
ela dizia que era minha. Mas verdade,
na verdade foi mentira.
--- Ela não me amava."
E as lágrimas rolaram.
Coitado, chorou!
Secou, com a manga, o rosto:
"Que Deus te proteja. Agora, já vou!
No caminho distante, buscarei a sorte
--- talvez ela esteja depois do Dnipro...
Reclinarei a cabeça, pensando em ti!
E tu, porventura, terás chorado por mim?
Nem verás como um corvo
terá bicado os meus olhos
--- olhos castanhos, acariciados por ti.
Os olhos do cossaco, que um dia beijaste ---
que eram só teus; agora, só meus. Por que?
Pois então me esqueça.
Não mais lembres de mim
--- nem do teu juramento,
que um dia fizeste.
Dê a outro o teu coração.
Sou um simples mortal;
e tu, uma tetarivna.
Se um dia ouvires,
que em campos estranhos repousei
--- faça uma oração breve. Assim,
um descanso tranquilo terei!"
No bordão apoiou a cabeça e,
de novo, chorou. Chorou muito...
Até que um barulho se ouviu: algo crepitou!
Junto ao bosque,
qual um coelho acautelada,
aproxima-se a Oksana.
Esqueceu o choro
--- correu até ela;
os dois se abraçaram.
"Coração!" --- desmaiaram.
Muito tempo assim ficaram. Apenas:
"Coração!" --- de novo, calaram.
"Basta, meu pássaro meigo!"
"Mais um pouco,
mais... mais... ó, meu amado!
Beba a alma minha!.. mais... e mais.
Ai!.. Como estou aflita!"
"Pois descanse, minha estrela!
Tu do ceu caiste!"
Estendeu uma coberta.
Sorridente, como estrela,
ela sentou-se calma --- ele, junto dela.
"Fiquemos juntinhos ---
sintamos o mundo, como se fossemos
debruçados numa janela".
"Coração meu, minha estrela,
onde estiveste luzindo?"
"Atrasei-me hoje:
papai adoentou-se;
fiquei ao lado dele..."
"De mim, nem te lembraste?"
"Quão mesquinho és tu;
Deus que te Perdoe!"
As lágrimas brilharam.
"Não chore, querida. Brincadeira".
"Brincadeira!" --- Sorriu.
Encostou no ombro dele e,
quase, adormeceu.
"Sim, Oksana, estou brincando;
e... tu choras de verdade. Mas,
não chores.Veja os meus olhos.
Amanhã estarei longe.
À noitinha, estarei em Chyhyryn
--- tornando-me um dos haidamaky.
Ficarei rico --- terei ouro e prata,
serei respeitado; terei glórias;
terás roupas e terás sapatos...
Serás uma bela e vaidosa pavoa,
p'ra que eu possa admirar-te
como uma senhora hetman,
até que me leve a morte".
"Pode ser que tu me esqueças!
Sendo rico, viajarás a Kyiv
com os cavalheiros outros;
terás outras amizades ---
esquecerás a tua Oksana!"
"Mais bela que tu, no mundo haveria?"
"Até pode haver... --- Eu não saberia."
"Tu a Deus ofendes, falando assim.
Mais bela que a minha Oksana não há:
nem no ceu, nem cá na terra, e
nem após o azul dos mares, --- nem alhures.
Mais bela que a minha Oksana não há!"
"Estás dizendo o que?
Reflita um pouco: não exageres!"
"Mas é verdade, minha cara!"
A conversa foi-se indo, foi-se indo e,
não terminava... Beijos e abraços e,
mais beijos... --- Juramentos davam.
Depois, Yarema contava
como seria a vida futura.
Unidos p'ra sempre: ouro e sorte teriam.
Mas, o mais importante:
os lyakhy, uma vez por todas,
a Ucrânia livre deixariam.
Que a sorte esteja com eles
e que o Yarema dos combates retorne,
para que, ao lado de Oksana,
os destinos da Ucrânia transforme.
Foi fastioso ouvi-los, meninas!
"Vejam só! Parece verdade ---
Foi entediante!.."
Pois bem,
quando os pais souberem --- desta estória,
que vós agora vós estais lendo,
que pecado não terá sido para a boca cheia!..
Então, depois... que Deus me perdoe,
será muito engraçado! Ainda mais, se vos
contasse que o cossaco de olhos negros,
debaixo da sombra de um salgueiro,
abraçado à querida sua, triste chora.
A Oksana, como pequena pombinha,
arrulha, arrulha... e geme...
--- cobrindo de beijos o seu namorado.
Também chora e, vezes desmaia.
Cabecinha encosta:
"Meu amado, minha vida!
Ó, meu falcãozinho!
Não vá... fique comigo!"
Tanto amor e juramentos,
que o salgueiro se contorce.
Ouvir quereis, meninas!
Não, não conto ---
a conversa deles é muito picante;
tereis sonhado à noite
--- e é ultrajante!..
Que os dois se distanciem, --- se separem
assim como se encontraram: de mansinho,
bonitinhos. Que ninguém os veja. Para que:
as lágrimas da coitadinha ninguém sinta; e,
também, as do seu cossaco.
Pois que assim seja...
Qu o destino os separe agora;
mas, que no futuro,
a sorte possa uni-los de novo.
Veremos. Assim vive o povo...
Brilham luzes nas janelas ---
são do tytar os ricos aposentos.
Algo deve estar acontecendo!..
Visitemos já, para o sabermos.
Cuidado tomemos, p'ra que não nos vejam!
Quisera não ter visto, p'ra que não contasse!
Por causa das gentes, é vergonhoso;
uma dor na alma e no coração...
Vejam só!.. São os confederados.
Gente reunida para as liberdades defender.
Defendem o que? Desgraçados...
Que a mãe deles seja maldita
--- o dia e a hora que os viu nascer!
Vejam o que se passa
nos aposentos do tytar:
Infernais filhos.
As chamas inflamaram a todos
--- labaredas tomaram a conta da mansão.
Num canto, se apoiando na parede,
o velho taverneiro, feito um cachorro uiva;
ao lado dele, os confederados berram:
"Queres viver? Entregue-nos o dinheiro!".
Agora, ele calado; não respode.
Ataram as mãos cansadas dele,
jogaram o seu corpo ao chão --- e, nada,
nem uma palavra só. --- Emudeceu?..
"Talvez a dor não lhe é tanto!
Que tal carvão queimando!
E o betume derretido?
Vamos aspergi-lo! Assim! Está esfriando?
Mais brasa precisamos!..
Alguma coisa deves falar, seu miserável!
O velhaco nem se lamenta!..
Mas que finório teimoso! Esperem um pouco!"
Encheram de brasa a botina...
"Crave-se um prego no sincipúcio!"
Coitado! Não aguentou o santo castigo;
Tombou o sofredor --- não resistiu!
Partiu... Uma alma se perdeu,
sem uma chance, ao menos
de ter-se confessado!..
"Oksna, filha minha! --- um íltimo suspiro e morreu.
Os lyakhy --- paralisados e pensativos,
então, se perguntaram: "Fazer o que, agora?
Senhores do Conselho! Pensaremos algo ---
com ele nada podemos mais fazer!
Podemos queimar o templo!"
--- Um vozerio!
"Que Deus nos perdoe!
Acreditamos todos em Deus!"
Amotinavam-se os lyakhy.
Gritaram: "Quem é?"
Batia à porta a Oksana.
"Mataram o meu pai, mataram!"
Ao chão caiu como uma pedra,
e desmaiou.
Da turba o lider,
sobre os presentes,
acenou a sua mão e,
todos de pronto silenciaram
--- como se cães domesticados fossem.
Abriu-se a porta e a Oksana:
"Yarema, onde estás tu?"
Yarema, muito distante,
trilha caminhos desconhecidos
--- canções cantando
de como o Nalyvaiko
tenha lutado com os lyakhy.
Tombaram os lyakhy;
com eles, tombou a Oksana.
Ouvia-se uivo de cães em Olshana
--- ora latiam, depois silenciavam...
A lua brilhava; as pessoas dormiam.
O tytar, também dormitava...
Não mais levantaria:
adormeceu para sempre.
As luzes que um dia foram acesas,
se apagaram. Se apagaram p'ra sempre.
Parece que o morto suspirou.
Um silêncio triste,
dos aposentos a conta tomou.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
tytar --- Administrador eclesial, responsável pelo templo e pelas coisas relativas ao
suprimento das necessidades eclesiais
tetarivna --- Filha do tytar
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04/21/2009
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